hospitais

Gosto deles mesmo sabendo que parecerá estranho. Talvez alguns já me tenham repugnância pelo que digo. Agradam-me o silêncio, o estado de suspensão em que se encontram todas as coisas, o respeito desde sempre aceito e incorporado por toda a gente. Não se buscam razões e a vida é apenas a luta por si mesma, despojada de todos os simulacros de ocupações que antes nos tomavam todo o tempo.

Nos quartos, tudo é apenas aquilo a que se presta. Quero dizer, a cama é apenas uma cama, o criado-mudo, uns recortes em madeira. Não há adornos e tudo costuma ser em tons claros. As pessoas assumem um ar grave, são obrigadas a conter as impaciências e até o pior dos cerdos se torna artificial e provisoriamente distinto. Concede-se um salvo-conduto para que se estampem na cara as dores que se carregam dentro. E não só aos doentes. Ninguém se atreverá a perguntar-lhe o motivo de sua tristeza, ninguém tentará infundir-lhe ânimo, ainda que você esteja simplesmente caminhando pelos corredores ou sentado na cafeteria.

A resposta mais comum é que se gostaria de morrer de uma tacada só, preferencialmente durante o sono. Eu não. Quero uma longa temporada no hospital, quero uma doença que demore a matar-me. Desejo sentir a vida indo embora aos poucos, esvaindo-se lentamente. Talvez assim, ela finalmente se apresente a mim de uma maneira mais palpável, tangível, sim!, aí está!, por fim, posso contemplá-la, por mais que se vá, esteja me abandonando. Meu único pedido será um quarto com janela. Os moribundos costumam ter muito crédito com as pessoas e, de qualquer maneira, não creio que dê muito trabalho. Quero poder ouvir os sons do mundo entrando, sem ter de ver seus responsáveis. Imaginarei todas as formas e, aos poucos, desalojarei todas as lembranças. Em especial, quero ouvir os pássaros e não me importo que pousem na borda da janela. Não me incomodaria vê-los. Na verdade, levarei a tristeza de nunca termos tido um contato mais íntimo (nunca lhes dei muita atenção). Tive meus tempos de ocupado.

Mas em meu próprio benefício, afirmo que nunca deixei de duvidar. Nunca acreditei profundamente naquilo que dizia ou fazia, e desconfiava o tempo todo de que a verdade permanecia escondida, inacessível, e que certamente estava mais nos pássaros do que em mim. Quanto alívio por ter apenas a roupa do corpo (se é que se pode chamar de roupa o manto de linho que me cobre da cabeça aos pés). Ah!, quanta alegria por já não haver diferença entre meus "sim" e "não", aos quais a enfermeira infalivelmente responde que é hora da medicação. Nesse ponto, confesso que me decepcionei. Contava poder divertir-me com pílulas das mais diferentes cores. Mas todas brancas e a enfermeira diz que estão em franco desuso; é questão de tempo até que sejam substituídas por tubos que despejarão seu conteúdo diretamente na corrente sanguínea, contendo toda a medicação receitada ao paciente.

Sei que disse ter um único pedido, mas não será possível que me encontrem uma janela com vista para uma árvore qualquer? Não faz falta que tenha flores. Mesmo que seca, mesmo que morrendo como eu. Repararei em todos os seus detalhes e não poderá haver maior alegria no mundo. Se bem que...esperem. Sim!, saíam da frente: nas ranhuras da parede do prédio que vejo todos os dias, percebi agora o desenho de uma árvore. O tronco é robusto e a copa frondosa. Vocês não a enxergam?

Talvez estejam sensibilizados demais com minha situação e não consigam se ater aos detalhes. Não incorram nesse erro. Andem, vão embora. Assustam-me os olhares que se formam em vocês. Se insistirem, façam ao menos como peço: longe daqui, cantem meu nome na hora mais silenciosa e prometo que me esforçarei por ouvi-los no vento. Mas, por favor, não me obriguem a continuar vendo suas caras. Quero estar sozinho, ouvindo a vida como o eco de uma voz nunca encontrada. De uma vez por todas, tudo será imaginação e sonho. No momento do adeus, finalmente daremos as mãos e eu partirei sorrindo.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Cap. 68 - O Jogo da Amarelinha