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Mostrando postagens de Agosto, 2009

hospitais

Gosto deles mesmo sabendo que parecerá estranho. Talvez alguns já me tenham repugnância pelo que digo. Agradam-me o silêncio, o estado de suspensão em que se encontram todas as coisas, o respeito desde sempre aceito e incorporado por toda a gente. Não se buscam razões e a vida é apenas a luta por si mesma, despojada de todos os simulacros de ocupações que antes nos tomavam todo o tempo.

Nos quartos, tudo é apenas aquilo a que se presta. Quero dizer, a cama é apenas uma cama, o criado-mudo, uns recortes em madeira. Não há adornos e tudo costuma ser em tons claros. As pessoas assumem um ar grave, são obrigadas a conter as impaciências e até o pior dos cerdos se torna artificial e provisoriamente distinto. Concede-se um salvo-conduto para que se estampem na cara as dores que se carregam dentro. E não só aos doentes. Ninguém se atreverá a perguntar-lhe o motivo de sua tristeza, ninguém tentará infundir-lhe ânimo, ainda que você esteja simplesmente caminhando pelos corredores ou sentado na…

poema 7

A Mona Lisa
(pintura mais famosa de Leonardo da Vinci)
sofreu um ataque no Museu do Louvre

Uma turista russa arremessou contra ela
uma caneca

Mas aí começam as divergências:

Alguns dizem que era de barro
Outros, simplesmente, que estava vazia

Discordam ainda quanto aos estragos
sofridos pelo vidro
(a prova de balas)
que protege a tela

Não se sabe ao certo
se sofreu apenas um pequeno arranhão
ou pequenas rachaduras
(o que seria evidentemente pior)

Sobre a saúde mental da mulher
concordam que foi encaminhada à uma instituição psiquiátrica
por mais que tenha sido liberada
dias depois

Ninguém perguntou
mas a Mona continua sorrindo
como sempre

poema 6

Lua

- palavra que intuo redonda
- objeto que sempre me ensinaram belo

Não desconfio serem essas
impressões imemoriais
grudadas a ela sem pedir permissão

E que talvez a "lua"

(doravante a chamarei simplesmente coisa)

Que talvez a coisa
desejasse ser quadrada
e ter outro nome

Arre, que ânsia por voltar no tempo
ser o primeiro homem
vê-la pela primeira vez
e chamá-la olho-de-peixe-negro

poema 5

não sei...

tenho a petulância de interessar-me
apenas pelos grãozinhos
que trago em minhas mãos

dou-lhes vida
dou-lhes brilho
e uma certa importância

vez ou outra
divido-os com alguns poucos

mas a gente não gosta de coisas pequenas

(sempre sonham escapar para o céu
e agarrar as estrelas)

e a maior parte do tempo
os tenho só para mim

(amo-os sozinho)

não sei...

acho que será sempre assim