O quase-eu

Este sou o quase-eu em um dia chuvoso. E não importa se é manhã, tarde ou noite. Importa que gotas a escorrer-lhe por nossas caras, misturando-se ao suor de uma corrida sem fim e sem passos. Como tudo é água, ninguém o nota. Mas nós (mais ele do que eu) sabemos os becos visitados, as mulheres violadas e os sonhos corrompidos por lágrimas de sal. E ainda que a tinta seja de uma única cor, o ranço está lá, nas dobras do cabelo do quase-eu; aqui, em nosso olhar deliberadamente perdido, buscando desconhecidas alianças com tudo aquilo que ignoramos. O quase-eu tem o privilégio do silêncio, da impossibilidade da voz, e isso é tanto. Aí está nossa diferença porque eu tenho o dom da mentira e me transformo constantemente em um embuste. O quase-eu resguarda para nós as verdades adiadas. Nossos pecados permanecem escondidos nas entrelinhas do que nunca será escrito ou dito. O veneno aguarda tranqüilo nas gotas azuis de minha caneta e nas canções entoadas para o sono de todos.

Comentários

.luísa pollo disse…
"o veneno aguarda tranquilo nas gotas azuis de minha caneta"
gostei disso.
Alguma aldeota disse…
Quase, quase, quase...
Vivemos à beira.

Lindíssimo o texto. De uma sensibilidade ímpar.

Parabéns.
Isis

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