Dois homens diante

Propus-me escrever algo sério. Pedi o café, ativei as dobras da testa e fiz a cara. Sobre dois homens desconhecidos um do outro e a necessidade que um deles sentiu de conciliar-se com o outro. Que a princípio lhe parecera repugnante e de modos vulgares. Falava alto e gesticulava muito: havia duas pessoas em sua mesa que pareciam simplesmente assisti-lo. Seguramente existia uma relação hierárquica entre eles, o que fez crescer a raiva. Por que já o odiava tanto? As chances do mundo dependiam do seu secreto acerto com aquele homem. Não que fosse levantar e falar-lhe. Mas precisava acreditar e encontrar em si a possibilidade de que se entendessem, por mais que nunca viessem a se conhecer. Por que, se não, como acreditar que... De repente, foi interrompido por um antigo e recorrente pensamento. Quando nu, em geral se preparando para o banho, nosso homem se intrigava com o dedão de seu pé. Dependendo de qual olhasse primeiro, poderia ser o direito ou o esquerdo, não importava. Ambos eram grandes e desajeitados, com escassos pêlos povoando-lhes a parte anterior à unha. Sentia repulsa e imaginava vagamente que os príncipes de quaisquer dinastias certamente tinham dedões de outra espécie, bem delineados seguramente. Sentia repulsa porque aquele dedão (é que não o considerava parte de si; o renegava profundamente) negava toda a sensibilidade e nobreza de seu espírito, que com freqüência discutia literatura e a condição humana. Repleto de fiapos desordenados, quase animalesco e, assim mesmo, superior a tudo em nosso homem, que a muito custo voltou a si e a seu rival. Qualquer conciliação lhe parecia impossível àquela altura. Voltou a odiá-lo sem nenhum pesar, com certa leveza até.

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