É sem palavras mesmo, old irish

“Por qual vou apaixonar-me na próxima hora e meia?” Para Raul, a pequena, com cara de ratinha de pelúcia, pareceu cravar-lhe os olhos e por isso levava ampla vantagem: é obcecado pela possibilidade do encontro de olhares com a atriz no palco. Se percebesse bem (e era o que sempre tentava fazer), Raul sentia o insuperável prazer de, às vezes, sentir não só a lente provisória da personagem, mas também os olhos acobertados da mulher. Tudo no mesmo par de esmeraldas. Sim, porque os da ratinha eram verdes como o da pedra, e seu brilho vencia todas as fileiras que o antecediam, alcançando-o em sua última-poltrona-de-sozinho-no-teatro. Que diabos, como teve alguma dúvida? As outras que o perdoassem, lindas também; aquela, por exemplo, saiu-se tão bem quando, sem querer, derrubou seu chapéu de lã, recolhendo-o do chão com a rapidez de um acrobata e o riso-para-disfarçar de um palhaço. A terceira e última era a dona da melhor cara de patético espanto, de consciência esquecida do absurdo; encaixava-se bem na peça, por mais que um tanto gorducha, Raul não conseguiu livrar-se de pensar. Encenavam uma peça de Beckett. Jogadas em um deserto, não tinham a possibilidade da voz. Incomunicáveis entre si e o mundo, observavam ao redor, ouviam ruídos, e tinham idéias, como não as teriam? Apareciam objetos, oferecidos por cordas que desciam do céu. Vinha, por exemplo, uma pequena garrafa de água (E como não teriam sede? Pois se estavam em um...), mas alta demais para se alcançá-la com as mãos. Surgia, então, por outro lado, uma caixa. “Uma caixa?”, perguntava-se a nós a ratinha, e ficava tão bonita inclinando ligeiramente para um lado e outro a pequena cabeça. Era esperta e logo a estava arrastando para, apoiando-se, tentar chegar ao fim de sua sede. Mas então, que brincadeira mais sem graça era aquela, subiam com a garrafa, afastando-a mais ainda, para que não se a alcançasse. A ratinha ficava brava, chacoalhava seu cabelo cacheado e os braços pelos lados, via as outras passando por apuros parecidos. De repente, percebeu que havia aparecido um pedaço de corda sem mais nem menos. Fez um laço e tentava acertar a garrafa, envolvendo-a. Pobre pequena, tentou tantas vezes até que se cansou. Olhava desolada para o laço feito com a corda. Com seu dedo, lentamente passou a acompanhar a circunferência, e ao mesmo tempo sua face mudava de expressão. Idéias, idéias. A ratinha começa a deslizar a mão pelo seu pescoço, cuidadosamente, como se o simples pensamento sobre o suicídio tivesse transformado seus dedos em lâminas. Mas entre a idéia e a realização cabem tantos anos e uma morte na cadeira de balanço, talvez até com netinhos segurando as mãos, e eliminado está o problema pela raiz branca dos cabelos de avó, a raiz na qual nos transformamos, presa ao solo de nossa casa, ao banco do carro e à poltrona do teatro....

Mas assim vão pensar que Raul se ocupava profundamente em refletir sobre a peça, enredo, etc. Na verdade, custava-lhe muito não reparar apenas nos olhos, no cabelo desajeitado, rebelde, que lhe cobria a cara toda quando a ratinha andava de lá para cá. Sejamos honestos: aproveitava quando ela saia de cena, para prestar um pouco de atenção. Em um desses momentos, formulou, de si para si, a seguinte reflexão acerca do que via:

O deserto representa a vida em sua mais crua realidade, desprovida das múltiplas distrações que inventamos. Naturalmente, há mais pessoas dividindo as mesmas areias e entre elas ocorre uma precária comunicação (o que na peça se faz representar de maneira drástica pelo mutismo das personagens). A idéia do suicídio é algo extremamente recorrente, mas, na maioria das vezes, a oscilação das circunstâncias e/ou humores impede sua concretização. Estamos na terra e não há nada a fazer contra isso. Leve desespero epidérmico. Absurdo com traços cômicos, etc, etc.


Até aí nada pareceu impressionar Raul. Já conhecia algo de Beckett, de sua melancolia tão peculiar e difícil de descrever, e a questão do sentimento do absurdo era explorada por alguns outros bons autores. Mas então, quando era a menina do chapéu (lembra-se? Até mesmo eu já me esquecia da pobre...) que tentava freneticamente alcançar a garrafinha de água, parte das cortinas laterais, que pareciam delimitar a extensão do palco em ambos os lados, despencaram, revelando o responsável pela manipulação das cordas que desciam dos céus: era a da cara de patético espanto, a gorduchinha, uma das três.

Sim, aí está. Eis o gênio de Beckett. Não entendemos o absurdo, que nos oprime com sua implacável e dissimulada manifestação no jornal de todos os dias e na recente descoberta feita pela Universidade de Louisianna. Tomamos, então, parte nesse espetáculo e nos fustigamos reciprocamente, torturamo-nos das mais sutis e variadas maneiras. Reivindicamos o que desconhecemos e nos instalamos em um falso protagonismo.

Raul bruscamente percebeu que a peça terminava. Não se lembra como. Talvez com as três correndo desesperadamente para os lados, para os cantos, sem direção. Estava pensando na ratinha. Sentia-se tolo. Se nem mesmo os que estão lado a lado, seja onde for, podem se comunicar, como poderia desejar uma desconhecida? Enquanto a pequena saia do palco, sorriu-lhe, mas não pode identificar: sorria a personagem, contente por ter seduzido com sua atuação, ou sorria a mulher, por haver notado que...Raul não sabia o que fazer. Esperou que todos da platéia fossem embora, talvez os atores saíssem pela frente mesmo, o teatro era pequeno, simples, não imaginava que tivesse uma saída especial. Permaneceu na poltrona por um longo tempo. Depois, sozinho, sentava-se outra vez, já na calçada. Fumava um cigarro.

Comentários

marcia cuccato disse…
está melhorando hein....=)

ótimo texto.
Nataly Callai. disse…
que coisa mais linda de morrer.

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