O amanhecer

Há dias ando querendo escrever sobre estes dias de outono. Agradam-me tanto. Especialmente as manhãs. E por causa de seu sol, que abandona a agressividade da estação passada, de raios feito lanças, a fustigar-nos a pele e as vontades. Agora, nestes dias, é como se se transformasse em um gentil convidado, pedindo muitas licenças antes de entrar em nossas casas. A lança se desfaz, desintegra, perde a ponta. Esparrama-se em uma névoa de calor, um orvalho de luz, que pousa sobre nossas cabeças, aquecendo-nos de uma maneira terna. Seu eu pudesse lembrar-me de como me sentia no útero materno, diria que estes dias de outono me fazem sentir novamente daquela maneira, protegido por todos os lados.
Mas essa beleza dura pouco. As duas ou três primeiras horas de sol, enquanto ainda retomamos nosso domínio sobre as ruas. Aos poucos, surge outra espécie de calor. Um calor dos homens, pútrido e torpe. Desfaz-se a névoa, desaparece o orvalho. Sobem aos céus nossos gritos e ruídos.
Assim mesmo, restam fachos de luz, cantinhos de resistência em que o véu de luz persiste delicadamente. Em zonas afastadas e ruas vazias, dançam seu baile e acariciam algumas faces distraídas.

Comentários

Anônimo disse…
vc é mesmo um poeta....sabe disso.

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