Bisa

“Papai nunca bateu em nenhum de nós. Não, nunca. Nem quando subíamos na árvore. Uma vez Luís não queria descer, disse que tinha medo de que ele o pegasse. Papai disse que não iria fazer nada, queria apenas que ele fosse para a cama. Meu irmão perguntou como iria saber se era verdade e papai respondeu que ele sabia que odiava mentiras. Então Luís baixou e papai sorria o vendo entrar na casa.”
A bisavó era muito querida por todos. Em seus aniversários a família se reunia. Todos os anos, falávamo-nos as mesmas coisas, em especial sobre o tamanho das crianças, que sempre cresciam, o que dava algo de novo aos velhos comentários. Fazia muito tempo que não a via: não estive quando completou 95. Naquele domingo, mamãe me disse que ela sentia muitas saudades, que sempre perguntava de mim e rezava. Eu disse que não era possível, que ela provavelmente já não se lembrava de minha existência. “É você que já deve ter se esquecido dela, filho”. Perguntei se ela estaria em sua casa, apenas para disfarçar a vergonha que me cobriu, afinal sabia que ela nunca saia, e fui. Olhos azuis parecem sempre alegres, mas assim mesmo percebi o brilho crescendo, assim que entrei no quarto. Suas pernas eram o único problema: só se movia com ajuda e, por isso, sempre estava sentada. Coloquei-me ao seu lado, bem próximo. Sabia que o melhor que poderia dar-lhe era o contato físico, deixá-la tomar-me-pelo-braço-e-como-está-a-vida-e-as-namoradinhas. O bom é sempre dizer que a vida está muito bem, e claro que quero um pedaço do bolo, vó. Enquanto o silêncio do chocolate tomava conta, ela começou a contar as histórias da infância.
“Papai falava alemão. Tinha curso e trabalhava como telegrafista. Muitas vezes conversava com mamãe e não entendíamos nada e achávamos engraçado, ríamos. Ele também se divertia. Um dia Luís teve a idéia de trocarmos as sílabas das palavras para que falássemos na frente deles, para que fosse a vez deles de não entender nada. Nhacoceiri no rinaz. Nhacoceiri no rinaz. Luís ficava repetindo na frente do papai, que um dia ficou bravo e perguntou qual era o significado daquilo. Luís disse que era como quando ele falava em alemão e não entendíamos nada. Coceirinha no nariz. Coceirinha no nariz. Papai ordeneou que ele parasse com aquela brincadeira, mas não fez nada. Papai nunca bateu em nenhum de nós. Não, nunca...”.
A tia esboçou uma cara de cansaço e disse que ela iria repetir a história da árvore, de que o pai nunca batia neles, etc., etc. Gritou no ouvido direito, dizendo que já tinha me contado aquilo tudo. Acho que naquela ocasião, ela se aproveitou da desculpa da quase surdez, para fingir que não tinha ouvido e continuar. Pedi para a tia, com a mão, que a deixasse: eu queria ouvir.

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