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Mostrando postagens de Junho, 2009

Tonhão

Tonhão é segurança de uma balada para jovens. Ele é forte (mas isso todos eles são), usa óculos escuros e paletó preto (idem, idem). O que o torna diferente (de modo extremamente favorável à sua profissão) é sua proeminente corcunda, que quase coloca sua cabeça à frente do corpo e não acima, dando ao conjunto Tonhão um aspecto extremamente assustador. Mas mesmo Tonhão sendo um sujeito muito bom, nunca pode dar mostras dessa sua virtude porque ninguém nunca se aproxima dele. Há apenas uma coisa boa nisso tudo e Tonhão já a percebeu desde o início de sua carreira. Nunca teve coragem de matar uma mosca sequer e tem medo de baratas. Hoje é dia de punk-rock na casa. Nesses dias, Tonhão fica muito tenso, mas é daí que entra aquele lado bom: o medo prévio que todos parecem sentir dele mantém tudo em ordem. Tonhão não saberia o que fazer se tivesse de separar uma briga dos jovens. Muitos deles usam acessórios cortantes, com pedaços de ferro, ou arame (ele se lembra de ter visto alguns com pon…

Bisa

“Papai nunca bateu em nenhum de nós. Não, nunca. Nem quando subíamos na árvore. Uma vez Luís não queria descer, disse que tinha medo de que ele o pegasse. Papai disse que não iria fazer nada, queria apenas que ele fosse para a cama. Meu irmão perguntou como iria saber se era verdade e papai respondeu que ele sabia que odiava mentiras. Então Luís baixou e papai sorria o vendo entrar na casa.”
A bisavó era muito querida por todos. Em seus aniversários a família se reunia. Todos os anos, falávamo-nos as mesmas coisas, em especial sobre o tamanho das crianças, que sempre cresciam, o que dava algo de novo aos velhos comentários. Fazia muito tempo que não a via: não estive quando completou 95. Naquele domingo, mamãe me disse que ela sentia muitas saudades, que sempre perguntava de mim e rezava. Eu disse que não era possível, que ela provavelmente já não se lembrava de minha existência. “É você que já deve ter se esquecido dela, filho”. Perguntei se ela estaria em sua casa, apenas para disfar…

É sem palavras mesmo, old irish

Imagem
“Por qual vou apaixonar-me na próxima hora e meia?” Para Raul, a pequena, com cara de ratinha de pelúcia, pareceu cravar-lhe os olhos e por isso levava ampla vantagem: é obcecado pela possibilidade do encontro de olhares com a atriz no palco. Se percebesse bem (e era o que sempre tentava fazer), Raul sentia o insuperável prazer de, às vezes, sentir não só a lente provisória da personagem, mas também os olhos acobertados da mulher. Tudo no mesmo par de esmeraldas. Sim, porque os da ratinha eram verdes como o da pedra, e seu brilho vencia todas as fileiras que o antecediam, alcançando-o em sua última-poltrona-de-sozinho-no-teatro. Que diabos, como teve alguma dúvida? As outras que o perdoassem, lindas também; aquela, por exemplo, saiu-se tão bem quando, sem querer, derrubou seu chapéu de lã, recolhendo-o do chão com a rapidez de um acrobata e o riso-para-disfarçar de um palhaço. A terceira e última era a dona da melhor cara de patético espanto, de consciência esquecida do absurdo; encai…
...se ao lembrar-me de quando tocava sua face, sentisse-me outra vez tocando sua face, apenas com isso viveria feliz; no entanto, a lembrança fica cada vez mais desbotada, vejo-me acariciando algo incerto, já sem forma; tenho medo de duvidar se chegamos a nos conhecer...

poema 3

se minha inveja fosse
mãos
esganaria muitas pessoas

se meu ódio fosse
punhal
degolaria tantas outras

se minha angústia fosse
silêncio
privaria de voz a todos

se minha vaidade fosse
espelho
haveria apenas minha face

se minha ignorância fosse
ponto final
interromperia a sabedoria alheia

se todos os meus pecados
ganhassem vida
seria o próprio fim

O amanhecer

Há dias ando querendo escrever sobre estes dias de outono. Agradam-me tanto. Especialmente as manhãs. E por causa de seu sol, que abandona a agressividade da estação passada, de raios feito lanças, a fustigar-nos a pele e as vontades. Agora, nestes dias, é como se se transformasse em um gentil convidado, pedindo muitas licenças antes de entrar em nossas casas. A lança se desfaz, desintegra, perde a ponta. Esparrama-se em uma névoa de calor, um orvalho de luz, que pousa sobre nossas cabeças, aquecendo-nos de uma maneira terna. Seu eu pudesse lembrar-me de como me sentia no útero materno, diria que estes dias de outono me fazem sentir novamente daquela maneira, protegido por todos os lados.
Mas essa beleza dura pouco. As duas ou três primeiras horas de sol, enquanto ainda retomamos nosso domínio sobre as ruas. Aos poucos, surge outra espécie de calor. Um calor dos homens, pútrido e torpe. Desfaz-se a névoa, desaparece o orvalho. Sobem aos céus nossos gritos e ruídos. Assim mesmo, restam f…