Verde

- Eu preciso te falar uma coisa.

(o livro de biologia foi pressionado contra os seios; as costas se apertaram mais forte contra o assento: ela era mais jovem)

- Que?

- Quando você entrou na Brigadeiro, juro que não imaginei que algo fosse acontecer. Eu estava me divertindo com uma tira da Mafalda. Mas então uma risada (veja, a culpa foi da própria) me arrancou do jornal, me botou novamente no vagão e me atirou a você.

- Você se sentou sem pressa, sentou-se para esperar. Eu tinha algum tempo para pensar e a Trianon-Masp passou direto.

- Veio a Consolação, o entra-e-sai, e por alguns instantes, pensei que você tinha descido. Mas não: sua cabeça estava tombada em direção ao vidro, amparada pela mão. Me pareceu que você viria até o final da linha, como eu.

- Nas Clínicas, eu já tinha gostado dos seus olhos, do seu sorriso. Especialmente, tinha me encantando por sua forma de sorrir: você baixa a cabeça em direção ao queixo; sua franja, que já sabe de tudo, fecha as cortinas e, a menos que se preste atenção, não se nota. E você sorriu quase todo o percurso. Me perguntava por quê.

- Quando a luz apareceu, passávamos pela parada da Sumaré. Enquanto esse leve intervalo pela superfície, o sol invadiu o vagão, filtrado pelo vidro, cruzou seus cabelos, esparramou-se em infinitos raios, e um deles me atingiu diretamente: vi com perfeição um de seus milhares fios dourados.


:ESTAÇÃO VILA MADALENA

- Agora já não há mais nada: ambos desceremos. Eu vou para casa. Vou preparar uma pizza Sadia. Ainda estou em dúvida se ouço Billie ou Stones. Tenho que acabar com um vinho antes que vire vinagre. Você eu não sei: provavelmente já tomaremos direções opostas assim que pisarmos na rua. Mas eu não posso deixar isso acontecer. Quero entrar na sua vida. Hoje te prepararei um café e amanhã talvez já te ame.

Comentários

Bernardo disse…
boa, camarada!
gostei em especial da imagem da franja que já sabe de tudo...
ah, tu já viu aquele filme Jogo Subterrâneo? Acho q vc vai gostar, lembra esse seu texto e foi inspirado em um conto do Cortázar.
abraço,
B
Alguma aldeota disse…
Gosto dessa incerteza-possibilidade: "hoje te preparei um café, amanhã talvez te ame".
Também fui remetida ao "Jogo Subterrâneo".

Interessante.
Anônimo disse…
lindo demais.

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