Quer saber o quanto eu te amo?

As coisas estão se tornando todas pequenas, perdendo em profundidade, em altura. Os grandes edifícios, por exemplo, parecem-me brinquedos, ainda que sem muita graça. Formo um “c”, com meu polegar e indicador esquerdos, e lá está: tudo perfeitamente delimitado no interior da barriguinha perfurada da letra escolhida. Na verdade, as construções nem mesmo conseguem preencher todos os espaços, que entram no meio uns nacos de azul do céu. Mas há algo muito divertido em tudo isso. Sim, porque quando estão assim, reduzidos, desimportantes, parecem-me mais verossímeis do que quando sou obrigado a entrar em um deles, passar por seus sistemas de segurança, e parar no 9 andar – prova irrefutável, para minha completa decepção, de que são maiores do que meus dedos. Lembrei-me de que quando pequeno, divertia-me frequentemente com tal joguinho: tudo cabia no interior de minhas mãos. Percebi, então, que melhor seria dizer que as coisas voltam a tornar-se pequenininhas para mim. Mas há uma diferença: quando criança, ninguém me convencia do contrário, nem mesmo quando, acompanhando minha mãe, eu entrava em um prédio, ou casa. Continuava acreditando mais neles quando os via pequenos, contidos nas fronteiras que eu estabelecia. Não me pareciam merecedores de tanto tamanho e atenção. Havia apenas uma coisa que me desafiava a crença, que me causava dúvidas, forçando-me a abrir uma exceção. Era a lua. Com ela eu brincava muito também e, claro, certamente também cabia com extrema facilidade. No entanto, parecia digna de alguma superioridade em relação à minha mão, tão linda, tão bem posta no céu. Assim, eu imaginava que se pudesse subir um dia nela, se pudesse vencer a distância que há entre nós, continuaria a vendo grande, linda e brilhante. Não me importaria em nada perder-me em suas dobras e ser eu o pequeno.

Comentários

Bernardo disse…
quando comecei a ler lembrei daquela fala em "Os Três Mal-Amados" do João Cabral:
http://www.releituras.com/joaocabral_malamados.asp
Bernardo disse…
me lembrou o texto de João Cabral pq os prédios perdem a altura como se fossem comidos pelo amor como em Os Três Mal Amados...
marcão disse…
adorei meu querido.
esse conto me faz lembrar de algumas peculiaridades da minha infancia que estavam adormecidas.
Precisamos levantar aquele nosso projeto\hobbie.

um grande abs
maya disse…
Subiu mesmo ao nono andar? Esse andar apareceu em vários sonhos meus mas os prédios sempre aparecem assustadoramente gigantes e (claro!) o elevador para de funcionar e gasto metade da noite subindo e descendo escadas...
maya disse…
Subiu mesmo ao nono andar? Esse andar apareceu em vários sonhos meus mas os prédios sempre aparecem assustadoramente gigantes e (claro!) o elevador para de funcionar e gasto metade da noite subindo e descendo escadas...

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