p&b


Já fazia algum tempo. “Tempo”: na verdade poucas semanas. Duas, talvez. De qualquer forma, nada era pretérito quando se tratava dela, e se buscava situar era por mera distração; tudo era tão presente, que se sentia sempre como logo depois de abraçá-la: havia o seu cheiro e o contato dos cabelos contra o corpo. Assim mesmo, a resposta só viera agora, no momento em que o relógio diz: “domingo à noite, hora de tomar um banho a ver se te espanta esse fantasma, meu velho”. A água escorria, enquanto ele finalmente entendia por que aquele rosto, tantas vezes amado, tantas vezes beijado, tantas vezes sonhado (porque agora só lhe restava sonhar), despertara-lhe o mesmo sentimento de sempre, mas acrescido de algo que não sabia bem o quê. Estavam tão próximos um do outro, que ao olhá-la, não se via nada além dele; não cabia mais nada nos olhos. Tudo escuro, claro, afinal era uma sessão de cinema. Raul se lembrava do filme, mas ele mesmo tratou logo de afastar tais recordações (como sempre, quando se lembrava dela, queria afastar-se de todo o resto). A face se havia iluminado com a luz fraca que vinha da tela e, por isso, parecia mais branca do que já era. O contraste com o escuro que dominava o lugar dava a ela ares de uma foto em preto em branco: “Como a primeira foto que vi, também sem cor, de perfil, mas com o rosto um pouco na transversal, como se ela não resistisse completamente a olhar para a câmera que a fotografava”. Lembrar-se, assim, da primeira lembrança que tinha dela abriu espaço em sua memória para que tudo entrasse aos solavancos. O poema do Paulo Leminski. A idéia secreta de dar ao filho que teriam o nome do poeta que os unira de uma maneira tão estranha. O jazz, o dia de vento, e tudo que misteriosamente a remetera a ele. Todas as conversas, todos os beijos. Meu deus, não podia nem mesmo descansar os olhos em algum canto da casa, porque ela estava em todos, havia passado por todos. Raul sentiu o peito pesado, os dedos com medo. Atirou-se no sofá. Sabia que assim não poderia continuar, mas que assim seria para sempre. Dizem que passa aqueles para os quais a coisa nunca veio de verdade.

Comentários

Alguma aldeota disse…
Tempo... tempo...
Emoção é inteireza. Plenitude.

Lendo seu texto senti nostalgia... aquela nostalgia da identificação, saca? Porque é impressionante como as coisas "passam" para aqueles que não se permitem viver plenamente.

Parabéns pela escrita.

Isis

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