Frevo

Deve ter sido em um daqueles dias em que nos encontrávamos para almoçar. Normalmente aos sábados, quando tínhamos tempo para comer como se deve, caminhar logo após, fumar alguns cigarros. Talvez, para ser mais preciso quanto ao exato momento, enquanto, em um desses finais de semana, procurávamos onde. Você falou de um restaurante que havia gostado muito, tinha ido uma vez, boa comida e o lugar que o interessara muito. Por alguma razão, nessa mesma ocasião, acabamos indo a outro: tínhamos poucos recursos. Uma das coisas de que me lembro é você dizendo que era um tanto caro. Outra que você me disse, Carlos, e dessa me recordo muito bem, ainda hoje é o lugar dessa lembrança que desejo encontrar todas às vezes que vou lá comer sozinho (porque agora você está longe, amigo, se foi e não tivemos a chance de ir lá juntos), foi que, sim, você disse, lembro-me com exatidão, o lugar fora feito para se comer em silêncio, dando-se atenção aos gestos. Você também contou que gostava de imaginar um pai levando seu filho pequeno, que com a mesma vontade ouviria o que ele lhe dizia e receberia as garfadas de comida levadas à sua boca. As mesas, estas são como você disse: quadrados de madeira sustentados por pernas de ferro, que descem levemente inclinadas para fora. De ferro também são as cadeiras, com assentos e encostos em vermelho: uma fina placa de algo recoberto por um tipo de plástico. Mas aquele pai, meu velho, o silêncio, nunca os encontrei, e são eles que sempre espero, pelos quais sempre anseio. Sempre estão homens que falam todo o tempo, e alto. E se olham tanto esses homens, que me surpreendo como conseguem comer, como não erram a boca, despejando para fora a comida. Sinto-me aborrecido, mon ami, cansam-me os ouvidos, invadem meus sentidos. Assim mesmo, continuo indo, sempre que posso. Tenho esperança, velho Carlos, você bem sabe: somos uns desgraçados esperançosos, nós dois, não é mesmo? Claro, vou pela comida também (é boa, você estava certo), mas, acima de tudo, vou por você, amigo, a ver se dou sorte e nos encontramos. Estaria bem, não te parece Carlos?

Comentários

Carlitos disse…
Caralho, ler isso numa manhã de sábado torna o texto mais significativo! Mas não anseies, num certo espaço do futuro faremos isso, e ainda vc terá que me aguentar vomitando todo passado de um ano que eu hei de lhe contar.
Abraço

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