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Mostrando postagens de Março, 2009

p&b

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Já fazia algum tempo. “Tempo”: na verdade poucas semanas. Duas, talvez. De qualquer forma, nada era pretérito quando se tratava dela, e se buscava situar era por mera distração; tudo era tão presente, que se sentia sempre como logo depois de abraçá-la: havia o seu cheiro e o contato dos cabelos contra o corpo. Assim mesmo, a resposta só viera agora, no momento em que o relógio diz: “domingo à noite, hora de tomar um banho a ver se te espanta esse fantasma, meu velho”. A água escorria, enquanto ele finalmente entendia por que aquele rosto, tantas vezes amado, tantas vezes beijado, tantas vezes sonhado (porque agora só lhe restava sonhar), despertara-lhe o mesmo sentimento de sempre, mas acrescido de algo que não sabia bem o quê. Estavam tão próximos um do outro, que ao olhá-la, não se via nada além dele; não cabia mais nada nos olhos. Tudo escuro, claro, afinal era uma sessão de cinema. Raul se lembrava do filme, mas ele mesmo tratou logo de afastar tais recordações (como sempre, quand…

Quer saber o quanto eu te amo?

As coisas estão se tornando todas pequenas, perdendo em profundidade, em altura. Os grandes edifícios, por exemplo, parecem-me brinquedos, ainda que sem muita graça. Formo um “c”, com meu polegar e indicador esquerdos, e lá está: tudo perfeitamente delimitado no interior da barriguinha perfurada da letra escolhida. Na verdade, as construções nem mesmo conseguem preencher todos os espaços, que entram no meio uns nacos de azul do céu. Mas há algo muito divertido em tudo isso. Sim, porque quando estão assim, reduzidos, desimportantes, parecem-me mais verossímeis do que quando sou obrigado a entrar em um deles, passar por seus sistemas de segurança, e parar no 9 andar – prova irrefutável, para minha completa decepção, de que são maiores do que meus dedos. Lembrei-me de que quando pequeno, divertia-me frequentemente com tal joguinho: tudo cabia no interior de minhas mãos. Percebi, então, que melhor seria dizer que as coisas voltam a tornar-se pequenininhas para mim. Mas há uma diferença: q…

Frevo

Deve ter sido em um daqueles dias em que nos encontrávamos para almoçar. Normalmente aos sábados, quando tínhamos tempo para comer como se deve, caminhar logo após, fumar alguns cigarros. Talvez, para ser mais preciso quanto ao exato momento, enquanto, em um desses finais de semana, procurávamos onde. Você falou de um restaurante que havia gostado muito, tinha ido uma vez, boa comida e o lugar que o interessara muito. Por alguma razão, nessa mesma ocasião, acabamos indo a outro: tínhamos poucos recursos. Uma das coisas de que me lembro é você dizendo que era um tanto caro. Outra que você me disse, Carlos, e dessa me recordo muito bem, ainda hoje é o lugar dessa lembrança que desejo encontrar todas às vezes que vou lá comer sozinho (porque agora você está longe, amigo, se foi e não tivemos a chance de ir lá juntos), foi que, sim, você disse, lembro-me com exatidão, o lugar fora feito para se comer em silêncio, dando-se atenção aos gestos. Você também contou que gostava de imaginar um p…