Talvez fosse em Itália...




A casa era realmente muito grande, havia espaço de sobra para toda a gente. Melhor seria chamá-la de casarão, com os dois andares que tinha, as escadas que se abriam imensas aos corredores de cima. Os degraus eram larguíssimos, que até se podia morar em um deles, e não seria mal porque o veludo que os revestia era bem quentinho. No andar de cima, muitos quartos brotavam do corredor, que se fechava em um grandioso círculo. Todo ele era protegido por uma grade talhada em madeira. Da beirada, via-se todo o salão inferior. Ninguém da família morava lá e havia pouquíssimos móveis (tinha contado apenas dois: restos da tia que ninguém quis levar embora). Havia a mesa da cozinha, um imenso retângulo já destruído em seus ângulos, e em um dos quartos (a curiosidade o tinha feito passar por todos), uma penteadeira bem velha também, da qual subia por detrás, e pegado a ela, um espelho ovalado, amarelado em algumas partes, desgastado em outras, que quem se atrevesse a buscar o reflexo nele invariavelmente não chegaria a uma boa opinião acerca da própria imagem. Nada mais. Apenas amplos espaços no interior de algo já bem grande. Imaginem o que pensaram a mesa, a penteadeira e as velhas paredes que ainda aguentavam, quando todos chegaram? Meu único conhecido era o Bernardo (cuja família era a dona do casarão), e eu não tinha nenhuma culpa pelo silêncio que lhes havia sido retirado.

No primeiro dia, estávamos todos muito, muito cansados. Cada um pôde escolher seu lugar e eu me meti debaixo de uma das escadas. Havia um buraco em um de seus lados que permitia se entrasse no interior de sua estrutura. Achei perfeito, pois poderia ter um pouco de paz mesmo entre tantos. Coloquei o colchão, depois entrei eu mesmo, e deitei a ler um pouco. Quando ela surgiu, foi tão rápido! Senti que algo se esgueirava, arrastando-se contra minhas pernas, mas logo a cara já estava grudada à minha: tudo havia sido realmente rápido! Foi como uma pedra que se atira num lago tranqüilo: alguém que o olha segundos depois, não nota o abalo que acabou de sofrer. Ela disse “oi”. Disse “oi”, como se não tivesse custado um bocado para entrar ali, como se não tivesse a o-bri-ga-ção de, antes, dizer, ao menos, um “Me desculpe”! Fechei o livro e respondi com um idêntico, mas desidratado, “oi”. A situação estava complicada: com ela ali dentro, nenhum dos dois poderia mover-se sem que, antes, um resolvesse sair, de modo que ficamos feito sardinhas em lata, com os olhos colados um no outro. Eram belos olhos, bem negros e inocentemente provocantes, como se soubessem apenas inconscientemente do poder que detinham. Toda a contrariedade que sua entrada havia me provocado já se dissipara e provavelmente se ela resolvesse ir embora, eu imploraria que não fosse, que ficasse me olhando daquele jeito para sempre. “Mas assim não vamos conhecer o jardim, e ele é bem bonito”, disse, adivinhando que se dependesse de mim, ficaríamos por ali mesmo. Ela saiu. Eu também. Mas quando olhei para o interior da casa, não a vi mais. Fui caminhando em direção aos fundos da casa, imaginando que sairia no jardim; ela já deveria estar lá.

Quando cheguei, não entendi onde ela havia enxergado beleza: não havia flores, nem gramados delineados ou alguma fonte. Apenas matos que cresciam livres e desordenadamente. “Vem logo. Você está demorando muito. Não percebe que temos pouco tempo? Anda, vem. Senta aqui comigo”. Ela me chamava do fundo do jardim, sentada em um banco de pedra que quase se desfazia, escondida por finos traços de verde que se esparramavam de uma árvore, em direção ao chão. Tinha as mãos por sobre os joelhos, espalmadas. Os braços bem esticados. Os olhos eram mesmo bonitos, mas agora pareciam um pouco preocupados. “O que você estava lendo, me conta? Quero saber”. Disse-lhe que, pela primeira vez, lia os contos de Pirandello. “Não conheço. Mas no futuro vamos ler juntos esse tal de Pirandello. Ver se é bom mesmo, se merece ser conhecido”. Futuro? Que futuro teríamos? Não nos conhecíamos, ficaríamos poucos dias na casa e ela mesma dissera que tínhamos pouco tempo! “Seu bobo... nosso futuro depende do pouco tempo que teremos nessa noite”, mais uma vez me desvendava os pensamentos. Disse essas palavras, enquanto desviava os olhos de mim, voltando-se à lua, que se via bem, estava toda prosa. Será que queria dar-me o tempo de admirá-la em silêncio? Ela continuava com as mãos da mesma maneira, os braços bem rígidos. Mas agora eu podia notar sua franja, despencando ligeiramente curvilínea pela testa, como uma cortina de teatro que estivesse sendo empurrada por atores ansiosos por entrar em cena. Sua pele era bem clara, tinha traços finos e um queixo bem pequeno, que delimitava bem o fim de sua face tão perfeita. Quando se voltou a mim, sorria levemente, enquanto que meu coração palpitava frenético. “Viu só seu bobo? Viu como ainda vamos ler Pirandello juntos?”.

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