QUANDO SE DIZ AQUILO QUE NÃO SE FALA

Bob Dylan tem uma que se chama “Most of the Times”. Arturo nunca foi muito fã, por mais que gostasse de algumas canções. Como costumava dizer em casos como esse, não tinha paciência para ouvir um disco todo. Mas “Most of the Times” era uma das que gostava, uma das boas. No entanto, gostava pura e simplesmente sem nunca tê-la dado muita atenção, parado para compreender o que dizia. Claro, muitas vezes gosta-se de uma música simplesmente por meio dos sentidos, da sensação física provocada por ela; Arturo julgava saber muito bem disso e já havia usado diversas vezes variações dessa afirmação para disfarçar, em suas resenhas, momentos em que lhe faltavam palavras, nos quais não as alcançava. “O mistério se explica por si mesmo”, havia lido em algum lugar. Frase essa que havia transformado em uma espécie de salvo-conduto intelectual para si. Mas assim mesmo, com o tempo e involuntariamente, acontece como com o próprio Arturo, em pleno sinal vermelho, enquanto se ouve a música em questão:

“Na maioria das vezes, eu consigo manter os pés no chão... na maioria das vezes, eu posso lidar com o que encontro pelo caminho... na maioria das vezes, eu nem percebo que ela se foi... na maioria das vezes”.

A sensação catalogada de repente cede espaço a um complexo esquema de polias que o meteu num engarrafamento, que o fez concentrar-se, como nunca antes, na tal música – porque os carros não andavam; que o fez notar como o verso final de cada estrofe confirma aquilo que acontece na maioria das vezes, e afirma o que acontece só bem de vez em quando; que o fez se lembrar que com ele, Arturo, é a mesma coisa: na maioria das vezes, está-se bem, dá-se atenção ao trabalho, ri-se de uma piada, mas, às vezes, bem, às vezes, ELA retorna e se impõe, enquanto se espera o verde, ou entre uma batata frita e outra, ou, pior, se mete até mesmo entre você e outra. “O que ele está nos dizendo é isso mesmo: aquilo que ainda acontece vez ou outra. E são essas as coisas que realmente contam, as que sobrevivem às novas circunstâncias que teoricamente já as teriam de haver descartado”, concluiu Arturo. Enquanto avança novamente com seu carro, se repete que já não havia o que fazer (fala DELA, claro) e nem mesmo se pudesse mudar as coisas: invariavelmente destinadas ao mesmo fim; mudar não é a palavra apropriada, como se pode notar. O que se faz é sobreviver, suportar. Afinal, na maioria das vezes não se pensa nela, não é mesmo? Sim, na maioria das vezes...

“Most of the time, i wouldn´t change it if i could, i can´t make it all match up, i can hold my own, i can deal with the situation right down to the bone, i can survive, i can endure, and i don´t even think about her. Most of the time.”

...mas que bela desgraçada: por que tinha de estragar tudo? Por acaso não se divertiam? Não desfrutavam do privilégio de se comunicarem tantas vezes em silêncio:

(...eu sei o que o seu olhar está me dizendo bem agora...)

por acaso não dividiam tantos gostos e não nutriam tantos ódios pelas mesmas coisas, divertindo-se especialmente com essa última espécie de coincidência:

(...o que, anda, me diz o que meu olhar está dizendo...)

Arturo não podia dar nomes para os sentimentos que ela ainda o inspirava. Às vezes julgava sentir ódio, mas logo em seguida talvez já fosse amor. Tinha lhe escrito uma vez exatamente isso, em uma das cartas enviadas: “amo-a tanto que não é possível odiá-la ainda mais”. Amor e ódio tinham se tornado simplesmente a mesma coisa. Tudo era ela: a saudade, como uma aranha, teceu uma teia na qual Arturo gostava de debater-se, esperando quando, com fome, ela viesse finalmente devorá-lo.

“Most of the time she ain't even in my mind; I wouldn't know her if I saw her She's that far behind; Most of the time I can even be sure If she was ever with me Or if I was ever with her
Most of the time.”

E era questão de tempo até que ela desejasse se nutrir da seiva do amor, coisa de aranhas da espécie humana, decidindo encontrar-se com você. A beleza se afirma pelo olhar do apaixonado. Não há melhor espelho que a íris de um olhar que ama.


- Faz um ano que não nos vemos e você não diz quase nada...


- Para mim não faz um ano, nem nada. Você nunca saiu daqui de dentro.


E, afinal, o que se pode dizer? O que são palavras quando se está diante de um amor do tamanho de um mundo? As palavras, tímidas, se recolhem. Talvez esse tipo de pergunta seja uma resposta: talvez vocês nunca tenham estado verdadeiramente juntos. Por acaso andaram alguma vez pela rua com ela presa tão forte ao seu braço, como se dependesse dele para continuar presa ao mundo?

Essas são conjecturas que não se evitam e as respotas variam conforme o tempo lá fora e o humor, talvez até o grau de fome e o que há de bom na geladeira.

Comentários

Márcia disse…
Oh! Esse merece respeito.
Márcia disse…
Oh!
Esse merece respeito.
Bernardo disse…
Rapaz, parabéns pela idéia dos contos relacionados a músicas. A série tá ficando bem legal mesmo!
Abraço

Postagens mais visitadas deste blog

Cap. 68 - O Jogo da Amarelinha