Foi mais ou menos assim:


Quando as luzes do auditório se acenderam, ela já estava ao meu lado esbravejando comigo. Era linda e seus cabelos de um dourado diferente; parecia que tinham derretido ouro e jogado por cima dele que, antes, devia ser de outra cor (apareciam restinhos de algo mais ou menos castanho). Ela era tão bonita que não pude prestar a menor atenção no que me dizia. Lembro só do cabelo (ouro-castanho), lembro da boca se mexendo, de algumas caretas de braveza e de um dedo apontado à minha cara. Fiquei quieto e nem posso dizer o que pensei, porque o cabelo, a boca, os gestos, não me deixavam pensar em nada mais. De repente (bastava-me em acompanhar, fixamente, com os olhos, a trajetória daquele dedinho que mais parecia um peixinho), ela o moveu para um sujeito todo pintado, pintado feito um palhaço triste, com aquele sorriso permanentemente para baixo; o tipo era um pierrot. Ela disse que meu amigo e eu (não consegui encontrar esse tal amigo, mas como ela se referia a ele com tanta certeza...), que nós, antes daquele espetáculo que acabava de terminar ter começado, tínhamos feito graça com o pierrot conhecido dela, na casa velha da frente, onde todos se encontram para tomar café, antes ou depois das apresentações.
Fiquei indignado porque meus amigos eu e eu normalmente respeitamos muito os palhaços, mas como não tinha o domínio pleno de minhas faculdades, não pude respondê-la com certezas objetivas do tipo álibis (não, o Sr. Palhaço triste mente: pergunte àquele cupido sentado ali; ele viu que tomávamos nossos milk-shakes sem importunar ninguém, pois perguntou se a mistura framboesa/chocolate se saia bem) e por isso me contentei em tomar a bronca calado e admirado, como não tinha uma desculpas dessas.
Já na rua, fomos pegos por uma chuva forte e nos escondemos baixo um toldo de uma loja de caramelos; ele próprio um grande caramelo achatado e retorcido, de tiras brancas e vermelhas. Eu tentava inventar alguma explicação só para dar-lhe algum assunto extra, porque ela já não sabia mais o que dizer, já que tinha despejado grande quantidade de palavras, sem qualquer oposição de minha parte (eu, cujo único desejo era continuar ouvindo-a). A conversa, então, recomeçou, porque ela simplesmente não se conformava com minhas infundadas objeções. Voltaram também as poses, o dedinho-peixinho e eu novamente perdendo a fala. Ela achou estranho e, talvez, que eu fosse um despeitado. Foi-se embora.
Eu a segui, e como a chuva era forte mesmo, de gordas gotas, vi que ela tinha entrado em uma dessas garagens cobertas, porém abertas. Ela me viu chegando. Eu senti que chegava. Mas senti, também, que já não queria somente vê-la, ou ouvi-la falando. Toquei levemente seu rosto e a percebi em sobressalto, embora não resistisse. Fui, então, beijá-la, mas daí... ela se esquivou. Não foi embora (não sei se pela chuva, se por curiosidade de querer saber o que eu faria depois ou se simplesmente para fazer uso de sua prerrogativa de mulher, que sempre querem decidir a hora dos beijos e desse tipo de coisa), mas ficou feito um animalzinho acuado num dos cantos dessa nossa garagem. Tentei aproximar-me dela, que continuou a esquivar-se, enquanto eu continuava tentando. De modo que começamos a girar feito duas crianças. Ficamos assim, rodando por um bom tempo, até que em nossas caras explodiram sorrisos.
Como chovia e além do mais corríamos, ela teve quase que gritar, quando perguntou:

- Você me ama?
- Claro que sim!, respondi enquanto ainda rodávamos já molhados, claro, pois mesmo que se lute contra uma chuva, nunca se sai completamente seco dela.
O sorriso explodido, então, tornou-se terno e eu soube que ela também me amava. Calmamente, saímos de nosso carrossel e nos beijamos.

Comentários

Bernardo disse…
bacana. verídico ou platônico?

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