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Mostrando postagens de Fevereiro, 2009

Foi mais ou menos assim:

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Quando as luzes do auditório se acenderam, ela já estava ao meu lado esbravejando comigo. Era linda e seus cabelos de um dourado diferente; parecia que tinham derretido ouro e jogado por cima dele que, antes, devia ser de outra cor (apareciam restinhos de algo mais ou menos castanho). Ela era tão bonita que não pude prestar a menor atenção no que me dizia. Lembro só do cabelo (ouro-castanho), lembro da boca se mexendo, de algumas caretas de braveza e de um dedo apontado à minha cara. Fiquei quieto e nem posso dizer o que pensei, porque o cabelo, a boca, os gestos, não me deixavam pensar em nada mais. De repente (bastava-me em acompanhar, fixamente, com os olhos, a trajetória daquele dedinho que mais parecia um peixinho), ela o moveu para um sujeito todo pintado, pintado feito um palhaço triste, com aquele sorriso permanentemente para baixo; o tipo era um pierrot. Ela disse que meu amigo e eu (não consegui encontrar esse tal amigo, mas como ela se referia a ele com tanta certeza...), q…

Metafísica meteórica

- Sabe qual é a diferença entre nós?

- Não

- É que enquanto você está sempre aqui, eu nunca saio de lá

Talvez fosse em Itália...

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A casa era realmente muito grande, havia espaço de sobra para toda a gente. Melhor seria chamá-la de casarão, com os dois andares que tinha, as escadas que se abriam imensas aos corredores de cima. Os degraus eram larguíssimos, que até se podia morar em um deles, e não seria mal porque o veludo que os revestia era bem quentinho. No andar de cima, muitos quartos brotavam do corredor, que se fechava em um grandioso círculo. Todo ele era protegido por uma grade talhada em madeira. Da beirada, via-se todo o salão inferior. Ninguém da família morava lá e havia pouquíssimos móveis (tinha contado apenas dois: restos da tia que ninguém quis levar embora). Havia a mesa da cozinha, um imenso retângulo já destruído em seus ângulos, e em um dos quartos (a curiosidade o tinha feito passar por todos), uma penteadeira bem velha também, da qual subia por detrás, e pegado a ela, um espelho ovalado, amarelado em algumas partes, desgastado em outras, que quem se atrevesse a buscar o reflexo nele invaria…

QUANDO SE DIZ AQUILO QUE NÃO SE FALA

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Bob Dylan tem uma que se chama “Most of the Times”. Arturo nunca foi muito fã, por mais que gostasse de algumas canções. Como costumava dizer em casos como esse, não tinha paciência para ouvir um disco todo. Mas “Most of the Times” era uma das que gostava, uma das boas. No entanto, gostava pura e simplesmente sem nunca tê-la dado muita atenção, parado para compreender o que dizia. Claro, muitas vezes gosta-se de uma música simplesmente por meio dos sentidos, da sensação física provocada por ela; Arturo julgava saber muito bem disso e já havia usado diversas vezes variações dessa afirmação para disfarçar, em suas resenhas, momentos em que lhe faltavam palavras, nos quais não as alcançava. “O mistério se explica por si mesmo”, havia lido em algum lugar. Frase essa que havia transformado em uma espécie de salvo-conduto intelectual para si. Mas assim mesmo, com o tempo e involuntariamente, acontece como com o próprio Arturo, em pleno sinal vermelho, enquanto se ouve a música em questão:

“N…