Uma de fritas, faz favor...

Se o espelho dissesse a verdade mutável que somos, talvez o rosto que você vê agora já teria aparecido por ali em algum momento: realidade de pele e ossos e carne que de repente se dissolve e se escorre, por mais que continue ali, continue toda orelhas, olhos, boca e alguns reflexos do tempo que já avança. Nesse interstício gelatinoso, você passa pela cara os dedos como que para certificar-se de que o quê o espelho reflete ainda está ali, de pé, dentro da roupa e dos sapatos, no interior do banheiro do apartamento 53, Rua Angélica, São Paulo. Para saber se o que se vê não é, na verdade, uma lembrança contida em alguma parte da poça de água na qual você se transformou molhando todo o chão de ladrilhos cor-sim-cor-não, e se apresse em recompor-se que logo vem alguém com um trapo velho a acabar com sua aventura aquática. E, de fato, é a estúpida certeza, desenhada no interior do recorte retangular em cuja borda superior há a loção pós-barba, pasta de dentes e desodorante, que vence, impõe-se e retoma o controle provisoriamente perdido talvez entre uma piscada e outra. A certeza que logo se arruma para o trabalho, usa a tal loção, a pasta e o desodorante. E como desconfiar dela se logo apontará para o número 9 exibido no interior de um elevador; ordem cumprida com obediência por um dedo indicador? Se na seqüência receberá tantos cumprimentos de colegas de trabalho? Arrume logo o cabelo e vá embora, meu velho, se não vai se meter num engarrafamento...
Como, como desconfiar dela se, vez ou outra, do trabalho, todos vão beber um pouco, jogar conversa fora e vamos Carlos, você nunca se mistura. Não gosta de nós?, avisam as risadas dos colegas e Carlos que sim, vamos, afinal hoje é sexta-feira, vamos, claro... Mas mesmo entre tanto afeto e sorrisos a gosma reaparece e se transforma no próprio copo com cerveja, e é a responsável por retirar o cigarro de seu confortável e enlatado descanso e colocá-lo na sua boca: alguém tem um isqueiro, por favor? Sabe como é, assim, em público, não se pode começar a meter os dedos na cara e a apalpá-la violentamente a ver se ainda há alguém ouvindo toda aquela conversa, se foi você mesmo que acabou de passar o cinzeiro à garota desconhecida sentada à esquerda. Imagine só o espanto, o silêncio provocado, ei, olha só o Carlos. O que é que ele está fazendo apertando a ponta do sapato? Por isso, apela-se a uma porção de fritas, à cerveja; melhor que acreditem que você está lá e não façam perguntas, e no máximo digam baixinho que você é assim mesmo; não é de falar muito e...

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