Branquinha

Sua ausência é a presença mais persistente que já conheci. Não é do tipo que se pode encarar, olhar nos olhos e pedir que se vá embora, não, não senhor. Você se prendeu fundo no que chamam de coração, alma, ou pode ser que até de estômago, ou de vísceras, de modo que quando e enquanto estou você também está, e daí como é que faz? Encontra-se com alguns amigos para com empolgação discutir temas, bebericar um pouco, planejar uma viagem para algum lugar; dá-se atenção aos de-ta-lhes e surge até mesmo certa expectativa positiva. Mas é só abrir a mala (se prepare para um grande clichê; pode começar até a entortar a cara, meu rapaz) e zás: onde é que está a maldita escova de dente? (ué, mas eu achava que...acalme-se, acalme-se que logo vem e você poderá justificadamente franzir o cenho...). Como é que alguém pode esquecer a bendita escova? Pode parecer estranho, mas das escovas até que se esquece (utensílios utilíssimos, não se nega, mas reféns eternos de seu destino semântico extremamente prático e bem palatável); o problema é com essas memórias do tipo cola super-bonder. Não se as esquece, mas também não é que alguém as traga consigo...é que somos as danadas, as malditas somos nós. E você não iria acreditar onde estivemos em nossa última viagem! Rafael nos arrumou uma pousadinha bem ajeitadinha (não sei se te contei, mas os diminutivos são uma das principais características do Rafael) bem perto do centro de Paraty. E ela é toda engraçada, sabe? Fica bem no interior de um quarteirão repleto de casas entroncadas, outras pousadas e também casas de verdade, que guardam famílias em seus interiores, que quando se vê, você está na varanda fumando o seu cigarro bem encima de um teto que, pela hora (são já lá as oito da noite), protege uma mãe que deve estar servindo o jantar, chamando pelos filhos que estão no quarto e gritando para que o marido levante da poltrona ao menos para comer. Nos divertimos tanto imaginando coisas desse tipo (como com as casas iguais dos seis irmãos judeus, todas coladas umas nas outras, lembra-se?), e em dado momento, chegamos a incontestável conclusão de que, na verdade, estávamos em um bairro vietnamita, entre aquelas várias varandas, voltadas umas para as outras, com seus varais repletos de roupas já secas depois de seu banho de sol. O que é que será que a mãe teria preparado? Quantos filhos teria e o que diriam todos se nos vissem agora, beijando-nos bem acima de suas cabeças, agora que já se acabou o cigarro? Estávamos com fome e essa estória toda nos atirou de volta ao quarto para mastigarmos algo e nos beijarmos mais confortavelmente, e também dormir, porque amanhã teremos um dia cheio; vamos a uma praia que só se chega depois de uma hora de caminhada! E agora que escrevo, estendido na areia bem branca e fofa, esgotado após tanto andar e maravilhado com essa água tão transparente que, já quase nos ombros, ainda permite que se veja o dedão do pé! Aqui são todos apenas cor de pele, porções de peixe frito e a contagem regressiva para o novo ano, anunciada entre uma música e outra, pelo cantor que anima a festa. E se agora escrevo não é por nada mais além do desejo de te fazer ainda mais presente nesse verde, na água do mar e, por fim, na areia, deitados que estamos, com as cabeças se vendo, com os olhos se olhando fixamente, satisfeitos com tudo e com mais um beijo que se aproxima.

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