O que Arturo poderia dizer? Porque sempre buscava palavras com as quais pudesse definir para si mesmo os momentos que vivia (contentar-se com apenas vivê-los é muito pouco, dizia Arturo, preferencialmente entre uma mesa e garota outra). Estava mais uma vez ouvindo Billie Holiday, um vinil duplo, som perfeito, coisa difícil de encontrar nos dias de hoje em que se acham discos apenas nos sebos. Donos de discos bons não se desfazem deles. Apenas quando morrem, suas raridades aparecem por aí, vendidas pelos filhos preocupados, desde o dia do enterro, com onde meter todas as porcarias do velho, onde é que já se viu juntar tanta coisa? Sorte sua encontrá-las antes de desaparecerem tão rápido como chegaram. E Arturo sabia da sorte que teve com aquele LP. Seu prazer já começava antes mesmo das primeiras notas escorregarem pegajosas pelas caixas de som, tomando conta de toda a casa e a redefinindo totalmente. “Redefinindo-a totalmente”. Quando a expressão cruzou sua cabeça, Arturo diminuiu o ritmo da masturbação. Teve a idéia de escrever uma resenha sobre Billie Holiday. Certamente seu editor a publicaria no caderno de cultura (é redator de um dos cadernos chamados de cultura que todos os jornais que se prezem possuem), agora que essas coisas até que vendem bem e já têm um público-alvo formado. Mas pensando assim, Arturo já se afastava da música, da lava derretida e negra que escorria pelo chão e subia pelas paredes, indo para bem longe daquele banheiro (onde ainda se masturbava, agora mais lentamente), para elogios empapados em bocas mentirosas nas quais até que se tem vontade de beijar de vez em quando (em sendo belas e femininas). Arturo sabia disso e dependia de tais conjecturas para vender seu algodão-doce. E que se vai fazer? Ele sabia que tudo aquilo, aquilo tudo que escrevia para os jornais, as conjecturas sabor morango, não passavam da nata que subia até sua cabeça, regressando pelos braços, finalmente expelidas por dedos que digitavam em Times New Roman 12. Sentiu-se triste. Arturo desejava, como uma criança que quer muito alguma coisa, ser realmente o que fazia. Olhou para um dos cantos do banheiro. Estava bem sujo. Arturo havia descoberto há algum tempo a capacidade que a sujeira tem de se aglutinar. Juntava-se em tufos de pó entrelaçados por fios de cabelo e certamente muitos outros tipos de partículas; todas as coisas vão se desfazendo em partículas com o tempo. Nós mesmos: dizem que vamos perdendo camadas de pele sem percebermos. Descascando lenta e gradualmente, substituída por um tecido cada vez mais velho e decaído, cada vez mais distante da idéia que fazemos de nós mesmos, eternos jovens abatidos e trapaceados pelo tempo. Lá havia um desses. Tufos que também o faziam se lembrar das bolas de não-sei-quê rolando bem na frente dos pistoleiros que se enfrentavam nos filmes de velho oeste, empurradas por um vento que também soprava cortante (de palha? de feno?). “Assim não vou gozar nunca”, pensou Arturo tentando agarrar-se a imagem que lhe servia, à lembrança que o estimulava, que motivara a ida ao banheiro. Mas uma negra morta, Arturo não sabia há quanto tempo, era quem controlava o ritmo. Não era mais a sua mão que repetia o acelerado movimento de pra-frente-pra-trás-pra-frente-pra-trás. Era Billie com sua mão em forma de voz, que invadia tudo, que determinava tudo, que acelerava, que diminuía, que enquanto era mão, também era voz que lhe sussurrava que quando saísse do banheiro encontraria um corredor escuro, cheio de prostitutas, drogados e viciados, homens que batiam em suas mulheres diante dos olhares alheios, pedaços de seres abandonados; que quando saísse do banheiro, dessa vez não iria encontrar seu corredor iluminado, sua mesa da sala, sua televisão e seus discos; todos esses simulacros de matéria. Dessa vez, Arturo sairia para entrar, guiado pela voz, mel repleto de pregos que lhe invadia pelos ouvidos. Entrava no seu corredor escuro, um caminho que percorria enquanto ainda estava sentado no vazo, enquanto ele, ou melhor, Billie, continuava, continuava, continuava... Caminhava por ele e, claro, prostitutas não eram prostitutas, e não havia homens batendo em mulheres. Arturo tinha suas próprias sordidezas, oh sim, para preenchê-lo por inteiro. As glórias recebidas por ecoar o que Billie cantava, porque entre o que Arturo escrevia (entre Arturo ((era a equivalência que permanentemente almejava))) e aqueles que o leriam, haveria máquinas tipográficas produzidas sabe-se lá onde e a quanto, haveria anunciantes e diretores. Talvez o próprio texto viesse ao lado de um anúncio de um condomínio de luxo assinado pelo Tom Jobim. A vida em bossa nova e 40.000 metros quadrados de puro verde. Ou poderia nos revelar a inveja que sentia das obras que comentava, dos discos que resenhava, porque para ele eram essas pessoas que realmente faziam algo. O resto era o espetáculo e nós somos a audiência. A inveja que motivara tantas críticas desfavoráveis, exceto quando se fala daqueles que já concordamos que são divindades humanas. Arturo queria apenas o descanso em uma paz cinematográfica com fundo jazz, e era isso o que aquela negra o proporcionava. Saraivadas em dó menor. Mas a mesma voz, que se delineava em tantos timbres, também o confortava ao fim. Sempre que Arturo terminava é como se também fossem pela privada todos os pensamentos que o masturbavam por dentro, chacoalhando pela cabeça. Claro que não era como o sexo, mas em seu banheiro ele também derrotava a vida, vez ou outra, transformando-se naquele instante. Por isso o som ligado. Só no final Arturo se sentia totalmente sozinho com a voz. Apenas Billie e ele.

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