CLIFFORD BROWN E O MILAGRE DA COZINHA



A comparação parecerá estúpida, mas que se pode fazer? A bem da verdade o próprio Arturo também a achou bem estúpida, por mais que divertida. “Talvez coubesse bem em alguma resenha qualquer; serviria para arrancar algumas risadas dos leitores e isso é sempre bom”, imaginou enquanto sorria com a comparação formulada bem no momento em que um esguicho de sabão o salpicava a testa com minúsculas manchas brancas e Clifford Brown o invadia com suas primeiras notas. É que de repente se deu conta de estar na sua cozinha (constatação nada inusitada quando, pouco antes, havia-se decidido por lavar pratos e copos e talheres sujos), como as que também existem nas jazz bands. Não exatamente iguais, claro. Desafortunadamente, ainda não chegara ao ponto de imaginar que, de repente ao precisar do pano de prato, estender-lho-ia o próprio Clifford, interrompendo seu trompete, sorridente mesmo assim por poder ajudar; voltando, logo em seguida, a contrair-se absurdamente, como que transformado unicamente no próprio ar que bufava, passando espremido pelo cano do instrumento, como se Clifford “terminasse” junto com a música e o trompete despencasse no chão porque já não haveria ninguém a sustentá-lo. Já não haveria mais a canção e, por isso, já não seria o caso de haver o próprio Clifford e tudo o mais. “Mas os copos sempre continuam aqui”, riu Arturo, enquanto os encarava. Copos de vidro que não podia entender (sempre lhe parecera um absurdo) como, em sua transparência inorgânica, tivessem vindo de uma mistura de carbonatos (o que são carbonatos, Arturo não sabia, mas eles não vêm ao caso...) e areia, minúsculas partículas indecifráveis que mal se vêem, como é que vão permitir que se veja algo através delas? Areia que gostava de ter por debaixo de seus pés, claro que antes de adquirirem sua forma vidro, porque daí a coisa ia ficar complicada, meu irmão. Mas da mesma forma que aquele absurdo no qual não podia acreditar estava bem diante de seus olhos e rodeado por seus dedos, por que é que aquele copo, aquela areia, aquele vidro, não poderiam também se tornar seu par de dança, no momento em que o acariciava com a esponja? Na verdade, suas mãos e todo seu corpo tinham sido muito mais rápidos que todas as suas conjecturas e Arturo, quando percebeu, estava freneticamente dançando e, quando se punha lenta a canção, acariciava o prato como se fosse a mulher da qual ainda sentia falta. Quando “take a train” começou, Arturo sentiu-se dentro da locomotiva, cujo apito era recriado com perfeição pela banda. “Vamos ver: para onde me levará essa danada?”. Talvez ao Alabama, para que pudesse sentir suas estrelas, desde um pedaço de chão transformado em um lugar inalcançável para qualquer outra pessoa, apenas you and me, baby. You and me. Mas esse pequeno drama estava acabado e a louça ainda não. Arturo pediu e Clifford atendeu: "swingin´ era tudo o que ele precisava para acabar com aquele baile todo, levando todos aqueles copos e pratos de volta aos seus lugares, esperando para serem usados novamente. Já não faltava muito e nos pouco mais de dois minutos em que Clifford destilou sua música, exibindo-se do banco em que ocupara na sala, nada mais aconteceu: Arturo foi suas mãos, foi o ritmo da música, a eficiência de uma cabeça momentaneamente vazia, foi a canção que quando termina, parece levar tudo consigo, seja pra onde é que ela for.

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