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Mostrando postagens de Janeiro, 2009

Uma de fritas, faz favor...

Se o espelho dissesse a verdade mutável que somos, talvez o rosto que você vê agora já teria aparecido por ali em algum momento: realidade de pele e ossos e carne que de repente se dissolve e se escorre, por mais que continue ali, continue toda orelhas, olhos, boca e alguns reflexos do tempo que já avança. Nesse interstício gelatinoso, você passa pela cara os dedos como que para certificar-se de que o quê o espelho reflete ainda está ali, de pé, dentro da roupa e dos sapatos, no interior do banheiro do apartamento 53, Rua Angélica, São Paulo. Para saber se o que se vê não é, na verdade, uma lembrança contida em alguma parte da poça de água na qual você se transformou molhando todo o chão de ladrilhos cor-sim-cor-não, e se apresse em recompor-se que logo vem alguém com um trapo velho a acabar com sua aventura aquática. E, de fato, é a estúpida certeza, desenhada no interior do recorte retangular em cuja borda superior há a loção pós-barba, pasta de dentes e desodorante, que vence, impõ…

CLIFFORD BROWN E O MILAGRE DA COZINHA

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A comparação parecerá estúpida, mas que se pode fazer? A bem da verdade o próprio Arturo também a achou bem estúpida, por mais que divertida. “Talvez coubesse bem em alguma resenha qualquer; serviria para arrancar algumas risadas dos leitores e isso é sempre bom”, imaginou enquanto sorria com a comparação formulada bem no momento em que um esguicho de sabão o salpicava a testa com minúsculas manchas brancas e Clifford Brown o invadia com suas primeiras notas. É que de repente se deu conta de estar na sua cozinha (constatação nada inusitada quando, pouco antes, havia-se decidido por lavar pratos e copos e talheres sujos), como as que também existem nas jazz bands. Não exatamente iguais, claro. Desafortunadamente, ainda não chegara ao ponto de imaginar que, de repente ao precisar do pano de prato, estender-lho-ia o próprio Clifford, interrompendo seu trompete, sorridente mesmo assim por poder ajudar; voltando, logo em seguida, a contrair-se absurdamente, como que transformado unicamente…
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O que Arturo poderia dizer? Porque sempre buscava palavras com as quais pudesse definir para si mesmo os momentos que vivia (contentar-se com apenas vivê-los é muito pouco, dizia Arturo, preferencialmente entre uma mesa e garota outra). Estava mais uma vez ouvindo Billie Holiday, um vinil duplo, som perfeito, coisa difícil de encontrar nos dias de hoje em que se acham discos apenas nos sebos. Donos de discos bons não se desfazem deles. Apenas quando morrem, suas raridades aparecem por aí, vendidas pelos filhos preocupados, desde o dia do enterro, com onde meter todas as porcarias do velho, onde é que já se viu juntar tanta coisa? Sorte sua encontrá-las antes de desaparecerem tão rápido como chegaram. E Arturo sabia da sorte que teve com aquele LP. Seu prazer já começava antes mesmo das primeiras notas escorregarem pegajosas pelas caixas de som, tomando conta de toda a casa e a redefinindo totalmente. “Redefinindo-a totalmente”. Quando a expressão cruzou sua cabeça, Arturo diminuiu o r…

Bom diálogo para se ter com uma garota (talvez já tido, mas, vejam lá, não contem para ela; apenas usem com as suas...)

- jazz é como a baba de Deus

(silêncio e ele que não está satisfeito)

- que a escorre chacoalhando pelas barbas

- nossa!

(e agora ambos que não estão satisfeitos e querem mais)

- de onde veio isso?

(é a hora, meu rapaz, atenção:

- dos meus joelhos que dobram ao som de lester young

- noooossa...

(dessa vez mais longo e suingado, como se pode perceber, feito o próprio jazz da conversa)

- e seus joelhos... sabem fazer algo mais?

(dispensam-se comentários)

- sabem dançar ano nosso ritmo, baby...

Branquinha

Sua ausência é a presença mais persistente que já conheci. Não é do tipo que se pode encarar, olhar nos olhos e pedir que se vá embora, não, não senhor. Você se prendeu fundo no que chamam de coração, alma, ou pode ser que até de estômago, ou de vísceras, de modo que quando e enquanto estou você também está, e daí como é que faz? Encontra-se com alguns amigos para com empolgação discutir temas, bebericar um pouco, planejar uma viagem para algum lugar; dá-se atenção aos de-ta-lhes e surge até mesmo certa expectativa positiva. Mas é só abrir a mala (se prepare para um grande clichê; pode começar até a entortar a cara, meu rapaz) e zás: onde é que está a maldita escova de dente? (ué, mas eu achava que...acalme-se, acalme-se que logo vem e você poderá justificadamente franzir o cenho...). Como é que alguém pode esquecer a bendita escova? Pode parecer estranho, mas das escovas até que se esquece (utensílios utilíssimos, não se nega, mas reféns eternos de seu destino semântico extremamente …