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Mostrando postagens de 2009

poema 20

Esperança:

coisa tola

bem à toa, à toa

poema 19

A minha sabedoria
tem cor de melaço
biquinhos durinhos
cabelos em cacho

A minha sabedoria
não se escreve
não se lê
não serve pra eles
e nem pra você

A minha sabedoria
me olha de um jeito
sabe do que eu gosto:
carinhos no peito

Sabedoria minha!
Nunca se vá
Não quero mais saber
da ignorância do beabá

poema 18

Ela disse:

- Meus seios não são brinquedos.

Ele respondeu:

- Como não? Se me diverti tanto com eles...
- Você acredita em amores à primeira vista?

- Claro que sim. Impossíveis são os outros.

(extraído e adaptado do conto "O Avião da Bela Adormecida", de Gabriel García Márquez)
...às vezes, a gente recebe uma rosa da vida. e a agarramos com tanta euforia, tamanha pressa e posse, que nos picamos em algum dos espinhos. com o tempo, ou em segundos, as flores perdem a cor, morrem, ou percebemos que já não estão no vaso da sala. mas continuamos sangrando, fica a marca, e dura a vida inteira. às vezes...

poema 17 ou tristeza em alguns atos

Tudo que está ao meu redor
acontece distante de mim.

Sinto-me esvaziar permanentemente
e daqui a pouco
não sobrará mais nada além de
pocinhas das letras que formavam teoremas.

Minhas soluções são como cometas:
passam ao largo de mim
e duram intervalos de segundos.

Moro na superfície de um olhar
que não penetra a fundo em nada.
Tudo que desejo se transforma em suspiro antes mesmo.
ao amigo marcus, desejando-lhe exatamente o contrário daqui

poema 16

sujeira bailarinacaminha livre pelo chão
o vento
pode levá-la
a qualquer

direção
desfaz-se sem dar explicaçãoacabou-se: era só ilusão.

poema 15

Rosa muerta

Sin cualquier
Soplo de vida

Sostiene

Únicamente

Sus pétalos
Resequidos

Belleza mórbida
Rojo-marrón

poema 14

Céu laranja

Céu escuro

Sol se indo

Sol se foi

poema 13

ando pelos lados


ando pelos cantos

apenas nos pêlos me acho


apenas nos pêlos me encontro

poema 12

Quando irá entender
que entre você e eu
eu e você
há apenas duas letrinhas
de distância?

poema 11

Gatos baldios
Que me entendem em silêncio
Ensinem esta garota
A também ler meus sentimentos

poema 10

Pretérito imperfeito:


tapeia o presente,


engana o futuro

poema 9

Sou o dono da cidade
Meu Hendrix se espalha pela vizinhança
Saltando frenético e explosivo pela janela

Mas a velha do 42
(síndica e tudo o mais)
Comprova que minha ordem ainda não foi aceita:

Chamou a polícia
E me aplicou uma multa
De 100 paus

poema 8

Quero parar no meio do caminho

Apenas a pausa me dá prazer

Parado poder

Café, um pouco de pão

Rouge

Ela está se maquiando. Sempre pede que me afaste nessas horas e eu obedeço como uma criança triste. Às vezes, a porta fica um pouco aberta e eu consigo espiar. Ela nunca percebe, tão concentrada em admirar a si mesma. Começa pelos olhos e, após vasculhar com decisão um estojo repleto de materiais de beleza, encontra o que buscava e, com gestos rápidos, transforma os cílios em uma cortina negra, que protege e realça duas safiras. Vendo-a ainda nua, julgo que ela não precisaria dessas coisas, mas não digo nada. Suas formas são todas bem delineadas, ela tem o tamanho correto para uma mulher e sua tonalidade é extremamente branca; acabo sempre pensando em uma escultura e terminei por apelidar-lhe de branquinha.
A bochecha já não é mais só pele, ligeiramente avermelhada pelo rouge que ela espalhou com a mão, que mais parecia um espanador consciente. Antes de vestir as roupas íntimas (enquanto as sustenta delicadamente entre os dedos; o braço a meia altura), olha-se demorada e languidamente.…

Sapato de couro tamanho 42

Ele foi novo um dia. Do tipo que impressiona e é escolhido especialmente para as vitrines. Seus primeiros pés foram muito importantes. O brilho de seu verniz intimidou muitos homens. Ao cabo de inúmeras conversas, decretou o fim de incontáveis bitucas de cigarro; comprimia com a ponta descrevendo um movimento pendular, de lá para cá, de lá para cá, tendo a parte de trás ligeiramente descolada do solo, de modo a concentrar mais força na frente. O sapato se sentia ambíguo em relação a esse ritual: gostava das atenções que recebia em tais momentos (olhavam-no com um misto de temor e respeito), mas não lhe agradava o desgaste que sofria em sua sola. No entanto, nada podia fazer, por mais que não pudesse deixar de considerar um exagero a demasiada força aplicada no gesto: seria necessário muito menos para extinguir a chama que dava seus últimos suspiros. Os resultados se fizeram sentir e o solado, outrora perfeitamente uniforme, tornou-se completamente chamuscado pelas intempéries das calç…

hospitais

Gosto deles mesmo sabendo que parecerá estranho. Talvez alguns já me tenham repugnância pelo que digo. Agradam-me o silêncio, o estado de suspensão em que se encontram todas as coisas, o respeito desde sempre aceito e incorporado por toda a gente. Não se buscam razões e a vida é apenas a luta por si mesma, despojada de todos os simulacros de ocupações que antes nos tomavam todo o tempo.

Nos quartos, tudo é apenas aquilo a que se presta. Quero dizer, a cama é apenas uma cama, o criado-mudo, uns recortes em madeira. Não há adornos e tudo costuma ser em tons claros. As pessoas assumem um ar grave, são obrigadas a conter as impaciências e até o pior dos cerdos se torna artificial e provisoriamente distinto. Concede-se um salvo-conduto para que se estampem na cara as dores que se carregam dentro. E não só aos doentes. Ninguém se atreverá a perguntar-lhe o motivo de sua tristeza, ninguém tentará infundir-lhe ânimo, ainda que você esteja simplesmente caminhando pelos corredores ou sentado na…

poema 7

A Mona Lisa
(pintura mais famosa de Leonardo da Vinci)
sofreu um ataque no Museu do Louvre

Uma turista russa arremessou contra ela
uma caneca

Mas aí começam as divergências:

Alguns dizem que era de barro
Outros, simplesmente, que estava vazia

Discordam ainda quanto aos estragos
sofridos pelo vidro
(a prova de balas)
que protege a tela

Não se sabe ao certo
se sofreu apenas um pequeno arranhão
ou pequenas rachaduras
(o que seria evidentemente pior)

Sobre a saúde mental da mulher
concordam que foi encaminhada à uma instituição psiquiátrica
por mais que tenha sido liberada
dias depois

Ninguém perguntou
mas a Mona continua sorrindo
como sempre

poema 6

Lua

- palavra que intuo redonda
- objeto que sempre me ensinaram belo

Não desconfio serem essas
impressões imemoriais
grudadas a ela sem pedir permissão

E que talvez a "lua"

(doravante a chamarei simplesmente coisa)

Que talvez a coisa
desejasse ser quadrada
e ter outro nome

Arre, que ânsia por voltar no tempo
ser o primeiro homem
vê-la pela primeira vez
e chamá-la olho-de-peixe-negro

poema 5

não sei...

tenho a petulância de interessar-me
apenas pelos grãozinhos
que trago em minhas mãos

dou-lhes vida
dou-lhes brilho
e uma certa importância

vez ou outra
divido-os com alguns poucos

mas a gente não gosta de coisas pequenas

(sempre sonham escapar para o céu
e agarrar as estrelas)

e a maior parte do tempo
os tenho só para mim

(amo-os sozinho)

não sei...

acho que será sempre assim

poema 4

tirado de uma notícia de jornal; uma homenagem a Manuel Bandeira

O britânico Steve Smtih
e a espanhola Carmen Ruiz-Perez,
conheceram-se quando tinham 17 anos
mas romperam

Anos depois,
Smith enviou uma carta pedindo o reencontro
mas ela se perdeu atrás de uma `
[lareira

Ao ler a carta
finalmente
Carmen procurou Smith
e eles se casaram
na sexta

Dois homens diante

Propus-me escrever algo sério. Pedi o café, ativei as dobras da testa e fiz a cara. Sobre dois homens desconhecidos um do outro e a necessidade que um deles sentiu de conciliar-se com o outro. Que a princípio lhe parecera repugnante e de modos vulgares. Falava alto e gesticulava muito: havia duas pessoas em sua mesa que pareciam simplesmente assisti-lo. Seguramente existia uma relação hierárquica entre eles, o que fez crescer a raiva. Por que já o odiava tanto? As chances do mundo dependiam do seu secreto acerto com aquele homem. Não que fosse levantar e falar-lhe. Mas precisava acreditar e encontrar em si a possibilidade de que se entendessem, por mais que nunca viessem a se conhecer. Por que, se não, como acreditar que... De repente, foi interrompido por um antigo e recorrente pensamento. Quando nu, em geral se preparando para o banho, nosso homem se intrigava com o dedão de seu pé. Dependendo de qual olhasse primeiro, poderia ser o direito ou o esquerdo, não importava. Ambos eram g…

O quase-eu

Este sou o quase-eu em um dia chuvoso. E não importa se é manhã, tarde ou noite. Importa que gotas a escorrer-lhe por nossas caras, misturando-se ao suor de uma corrida sem fim e sem passos. Como tudo é água, ninguém o nota. Mas nós (mais ele do que eu) sabemos os becos visitados, as mulheres violadas e os sonhos corrompidos por lágrimas de sal. E ainda que a tinta seja de uma única cor, o ranço está lá, nas dobras do cabelo do quase-eu; aqui, em nosso olhar deliberadamente perdido, buscando desconhecidas alianças com tudo aquilo que ignoramos. O quase-eu tem o privilégio do silêncio, da impossibilidade da voz, e isso é tanto. Aí está nossa diferença porque eu tenho o dom da mentira e me transformo constantemente em um embuste. O quase-eu resguarda para nós as verdades adiadas. Nossos pecados permanecem escondidos nas entrelinhas do que nunca será escrito ou dito. O veneno aguarda tranqüilo nas gotas azuis de minha caneta e nas canções entoadas para o sono de todos.

Um samba em homenagem

- Ei, me diga algo que eu possa fazer para me divertir, sem sair de casa...

- Lave a louça ouvindo James Brown, e não se esqueça da dançar bem os copos.

Respostas possíveis e suas conseqüências:

- Louça?! Argh...

(garotinha Beverly Hills; descartada sumariamente)

- Quem é James Brown?

(se for bonitinha, ganhará uma chance; ensinar para ela quem é James Brown poderá ser interessante...)

- Hum, a louça está limpa. Vale sujá-la ouvindo James Brown?

(atenção: essa garota merece muita atenção; possibilidade de grandes improvisos na cozinha; pena que seis anos, pena que...)

Tonhão

Tonhão é segurança de uma balada para jovens. Ele é forte (mas isso todos eles são), usa óculos escuros e paletó preto (idem, idem). O que o torna diferente (de modo extremamente favorável à sua profissão) é sua proeminente corcunda, que quase coloca sua cabeça à frente do corpo e não acima, dando ao conjunto Tonhão um aspecto extremamente assustador. Mas mesmo Tonhão sendo um sujeito muito bom, nunca pode dar mostras dessa sua virtude porque ninguém nunca se aproxima dele. Há apenas uma coisa boa nisso tudo e Tonhão já a percebeu desde o início de sua carreira. Nunca teve coragem de matar uma mosca sequer e tem medo de baratas. Hoje é dia de punk-rock na casa. Nesses dias, Tonhão fica muito tenso, mas é daí que entra aquele lado bom: o medo prévio que todos parecem sentir dele mantém tudo em ordem. Tonhão não saberia o que fazer se tivesse de separar uma briga dos jovens. Muitos deles usam acessórios cortantes, com pedaços de ferro, ou arame (ele se lembra de ter visto alguns com pon…

Bisa

“Papai nunca bateu em nenhum de nós. Não, nunca. Nem quando subíamos na árvore. Uma vez Luís não queria descer, disse que tinha medo de que ele o pegasse. Papai disse que não iria fazer nada, queria apenas que ele fosse para a cama. Meu irmão perguntou como iria saber se era verdade e papai respondeu que ele sabia que odiava mentiras. Então Luís baixou e papai sorria o vendo entrar na casa.”
A bisavó era muito querida por todos. Em seus aniversários a família se reunia. Todos os anos, falávamo-nos as mesmas coisas, em especial sobre o tamanho das crianças, que sempre cresciam, o que dava algo de novo aos velhos comentários. Fazia muito tempo que não a via: não estive quando completou 95. Naquele domingo, mamãe me disse que ela sentia muitas saudades, que sempre perguntava de mim e rezava. Eu disse que não era possível, que ela provavelmente já não se lembrava de minha existência. “É você que já deve ter se esquecido dela, filho”. Perguntei se ela estaria em sua casa, apenas para disfar…

É sem palavras mesmo, old irish

Imagem
“Por qual vou apaixonar-me na próxima hora e meia?” Para Raul, a pequena, com cara de ratinha de pelúcia, pareceu cravar-lhe os olhos e por isso levava ampla vantagem: é obcecado pela possibilidade do encontro de olhares com a atriz no palco. Se percebesse bem (e era o que sempre tentava fazer), Raul sentia o insuperável prazer de, às vezes, sentir não só a lente provisória da personagem, mas também os olhos acobertados da mulher. Tudo no mesmo par de esmeraldas. Sim, porque os da ratinha eram verdes como o da pedra, e seu brilho vencia todas as fileiras que o antecediam, alcançando-o em sua última-poltrona-de-sozinho-no-teatro. Que diabos, como teve alguma dúvida? As outras que o perdoassem, lindas também; aquela, por exemplo, saiu-se tão bem quando, sem querer, derrubou seu chapéu de lã, recolhendo-o do chão com a rapidez de um acrobata e o riso-para-disfarçar de um palhaço. A terceira e última era a dona da melhor cara de patético espanto, de consciência esquecida do absurdo; encai…
...se ao lembrar-me de quando tocava sua face, sentisse-me outra vez tocando sua face, apenas com isso viveria feliz; no entanto, a lembrança fica cada vez mais desbotada, vejo-me acariciando algo incerto, já sem forma; tenho medo de duvidar se chegamos a nos conhecer...

poema 3

se minha inveja fosse
mãos
esganaria muitas pessoas

se meu ódio fosse
punhal
degolaria tantas outras

se minha angústia fosse
silêncio
privaria de voz a todos

se minha vaidade fosse
espelho
haveria apenas minha face

se minha ignorância fosse
ponto final
interromperia a sabedoria alheia

se todos os meus pecados
ganhassem vida
seria o próprio fim

O amanhecer

Há dias ando querendo escrever sobre estes dias de outono. Agradam-me tanto. Especialmente as manhãs. E por causa de seu sol, que abandona a agressividade da estação passada, de raios feito lanças, a fustigar-nos a pele e as vontades. Agora, nestes dias, é como se se transformasse em um gentil convidado, pedindo muitas licenças antes de entrar em nossas casas. A lança se desfaz, desintegra, perde a ponta. Esparrama-se em uma névoa de calor, um orvalho de luz, que pousa sobre nossas cabeças, aquecendo-nos de uma maneira terna. Seu eu pudesse lembrar-me de como me sentia no útero materno, diria que estes dias de outono me fazem sentir novamente daquela maneira, protegido por todos os lados.
Mas essa beleza dura pouco. As duas ou três primeiras horas de sol, enquanto ainda retomamos nosso domínio sobre as ruas. Aos poucos, surge outra espécie de calor. Um calor dos homens, pútrido e torpe. Desfaz-se a névoa, desaparece o orvalho. Sobem aos céus nossos gritos e ruídos. Assim mesmo, restam f…
- "Acho que está faltando algo..."
- "Mas sempre está", respondeu Dario, tentando disfarçar sua prepotência de metafísica.
- “Não, não é isso... Quer dizer, sempre faltará algo em tudo, claro, mas aqui ainda parece faltar algo do possível, quero dizer, do que poderia estar aqui”.
- “Entendo...”
- “Mas eu acho que está bom... digo, as cores, realmente está muito bem pintado.”
- (Dario sorri sem mostrar os dentes, com o olhar fixo no olho esquerdo de seu amigo colorido).
- "Besteira, agora não adianta elogiar. E ligue o som. Coltrane, sim. Penso e pinto melhor ouvido jazz, você sabe."
- (Leila se dirige ao quarto à procura do show de Viena, 1977: de quebra, o piano de Monk.)
- "Mas me diga: agora resolveu pintar pessoas? Que aconteceu com suas naturezas mortas? Resolveu finalmente enterrá-las?", e pôde rir porque Dario não a via.
- (Dario de imediato vai até a porta do quarto e a espera encontrar o disco. Ascende um cigarro: o ruído metálico de seu isqueir…

poema 2

- ela
tão bonita ao lado
dele
linda como um de seus
belos versos de
poeta

- ele
servia tão bem ao lado
dela
evocava, em sua condição de poeta
a força criadora de sua fulgurante
beleza

convergiam feito dois riachos a um
mar

o verso serve ao poeta
o homem serve à mulher

separados são tão pobres
separados, resta-lhes a companhia de seus corações
mesquinhos
e a consciência pesada da frenética busca por
espelhos

poema 1

Cansado de ser humano
Preciso de uns dias de pedra
Umas férias em granito

Ser apenas rigidez
Sem espaço para dúvidas,
Angústias
Sem vãos para que as saudades
Se metam a devorar por dentro

E aí está: não quero ter dentro,
Não quero ser fora

Quero uma unidade cinza
Um silêncio sem ecos
Uma imagem sem reflexos

Ser, apenas
E não aspirar a...
Sonhar com...
Desejar que...

- Tudo isso tão pesado

Porque eu serei pedra-leve
Encontrada pelas mãos do menino
Que me atirará ao lago
E seguirá seu caminho

Verde

- Eu preciso te falar uma coisa.

(o livro de biologia foi pressionado contra os seios; as costas se apertaram mais forte contra o assento: ela era mais jovem)

- Que?

- Quando você entrou na Brigadeiro, juro que não imaginei que algo fosse acontecer. Eu estava me divertindo com uma tira da Mafalda. Mas então uma risada (veja, a culpa foi da própria) me arrancou do jornal, me botou novamente no vagão e me atirou a você.

- Você se sentou sem pressa, sentou-se para esperar. Eu tinha algum tempo para pensar e a Trianon-Masp passou direto.

- Veio a Consolação, o entra-e-sai, e por alguns instantes, pensei que você tinha descido. Mas não: sua cabeça estava tombada em direção ao vidro, amparada pela mão. Me pareceu que você viria até o final da linha, como eu.

- Nas Clínicas, eu já tinha gostado dos seus olhos, do seu sorriso. Especialmente, tinha me encantando por sua forma de sorrir: você baixa a cabeça em direção ao queixo; sua franja, que já sabe de tudo, fecha as cortinas e, a menos que se pre…

p&b

Imagem
Já fazia algum tempo. “Tempo”: na verdade poucas semanas. Duas, talvez. De qualquer forma, nada era pretérito quando se tratava dela, e se buscava situar era por mera distração; tudo era tão presente, que se sentia sempre como logo depois de abraçá-la: havia o seu cheiro e o contato dos cabelos contra o corpo. Assim mesmo, a resposta só viera agora, no momento em que o relógio diz: “domingo à noite, hora de tomar um banho a ver se te espanta esse fantasma, meu velho”. A água escorria, enquanto ele finalmente entendia por que aquele rosto, tantas vezes amado, tantas vezes beijado, tantas vezes sonhado (porque agora só lhe restava sonhar), despertara-lhe o mesmo sentimento de sempre, mas acrescido de algo que não sabia bem o quê. Estavam tão próximos um do outro, que ao olhá-la, não se via nada além dele; não cabia mais nada nos olhos. Tudo escuro, claro, afinal era uma sessão de cinema. Raul se lembrava do filme, mas ele mesmo tratou logo de afastar tais recordações (como sempre, quand…

Quer saber o quanto eu te amo?

As coisas estão se tornando todas pequenas, perdendo em profundidade, em altura. Os grandes edifícios, por exemplo, parecem-me brinquedos, ainda que sem muita graça. Formo um “c”, com meu polegar e indicador esquerdos, e lá está: tudo perfeitamente delimitado no interior da barriguinha perfurada da letra escolhida. Na verdade, as construções nem mesmo conseguem preencher todos os espaços, que entram no meio uns nacos de azul do céu. Mas há algo muito divertido em tudo isso. Sim, porque quando estão assim, reduzidos, desimportantes, parecem-me mais verossímeis do que quando sou obrigado a entrar em um deles, passar por seus sistemas de segurança, e parar no 9 andar – prova irrefutável, para minha completa decepção, de que são maiores do que meus dedos. Lembrei-me de que quando pequeno, divertia-me frequentemente com tal joguinho: tudo cabia no interior de minhas mãos. Percebi, então, que melhor seria dizer que as coisas voltam a tornar-se pequenininhas para mim. Mas há uma diferença: q…

Frevo

Deve ter sido em um daqueles dias em que nos encontrávamos para almoçar. Normalmente aos sábados, quando tínhamos tempo para comer como se deve, caminhar logo após, fumar alguns cigarros. Talvez, para ser mais preciso quanto ao exato momento, enquanto, em um desses finais de semana, procurávamos onde. Você falou de um restaurante que havia gostado muito, tinha ido uma vez, boa comida e o lugar que o interessara muito. Por alguma razão, nessa mesma ocasião, acabamos indo a outro: tínhamos poucos recursos. Uma das coisas de que me lembro é você dizendo que era um tanto caro. Outra que você me disse, Carlos, e dessa me recordo muito bem, ainda hoje é o lugar dessa lembrança que desejo encontrar todas às vezes que vou lá comer sozinho (porque agora você está longe, amigo, se foi e não tivemos a chance de ir lá juntos), foi que, sim, você disse, lembro-me com exatidão, o lugar fora feito para se comer em silêncio, dando-se atenção aos gestos. Você também contou que gostava de imaginar um p…

Foi mais ou menos assim:

Imagem
Quando as luzes do auditório se acenderam, ela já estava ao meu lado esbravejando comigo. Era linda e seus cabelos de um dourado diferente; parecia que tinham derretido ouro e jogado por cima dele que, antes, devia ser de outra cor (apareciam restinhos de algo mais ou menos castanho). Ela era tão bonita que não pude prestar a menor atenção no que me dizia. Lembro só do cabelo (ouro-castanho), lembro da boca se mexendo, de algumas caretas de braveza e de um dedo apontado à minha cara. Fiquei quieto e nem posso dizer o que pensei, porque o cabelo, a boca, os gestos, não me deixavam pensar em nada mais. De repente (bastava-me em acompanhar, fixamente, com os olhos, a trajetória daquele dedinho que mais parecia um peixinho), ela o moveu para um sujeito todo pintado, pintado feito um palhaço triste, com aquele sorriso permanentemente para baixo; o tipo era um pierrot. Ela disse que meu amigo e eu (não consegui encontrar esse tal amigo, mas como ela se referia a ele com tanta certeza...), q…

Metafísica meteórica

- Sabe qual é a diferença entre nós?

- Não

- É que enquanto você está sempre aqui, eu nunca saio de lá

Talvez fosse em Itália...

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A casa era realmente muito grande, havia espaço de sobra para toda a gente. Melhor seria chamá-la de casarão, com os dois andares que tinha, as escadas que se abriam imensas aos corredores de cima. Os degraus eram larguíssimos, que até se podia morar em um deles, e não seria mal porque o veludo que os revestia era bem quentinho. No andar de cima, muitos quartos brotavam do corredor, que se fechava em um grandioso círculo. Todo ele era protegido por uma grade talhada em madeira. Da beirada, via-se todo o salão inferior. Ninguém da família morava lá e havia pouquíssimos móveis (tinha contado apenas dois: restos da tia que ninguém quis levar embora). Havia a mesa da cozinha, um imenso retângulo já destruído em seus ângulos, e em um dos quartos (a curiosidade o tinha feito passar por todos), uma penteadeira bem velha também, da qual subia por detrás, e pegado a ela, um espelho ovalado, amarelado em algumas partes, desgastado em outras, que quem se atrevesse a buscar o reflexo nele invaria…

QUANDO SE DIZ AQUILO QUE NÃO SE FALA

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Bob Dylan tem uma que se chama “Most of the Times”. Arturo nunca foi muito fã, por mais que gostasse de algumas canções. Como costumava dizer em casos como esse, não tinha paciência para ouvir um disco todo. Mas “Most of the Times” era uma das que gostava, uma das boas. No entanto, gostava pura e simplesmente sem nunca tê-la dado muita atenção, parado para compreender o que dizia. Claro, muitas vezes gosta-se de uma música simplesmente por meio dos sentidos, da sensação física provocada por ela; Arturo julgava saber muito bem disso e já havia usado diversas vezes variações dessa afirmação para disfarçar, em suas resenhas, momentos em que lhe faltavam palavras, nos quais não as alcançava. “O mistério se explica por si mesmo”, havia lido em algum lugar. Frase essa que havia transformado em uma espécie de salvo-conduto intelectual para si. Mas assim mesmo, com o tempo e involuntariamente, acontece como com o próprio Arturo, em pleno sinal vermelho, enquanto se ouve a música em questão:

“N…

Uma de fritas, faz favor...

Se o espelho dissesse a verdade mutável que somos, talvez o rosto que você vê agora já teria aparecido por ali em algum momento: realidade de pele e ossos e carne que de repente se dissolve e se escorre, por mais que continue ali, continue toda orelhas, olhos, boca e alguns reflexos do tempo que já avança. Nesse interstício gelatinoso, você passa pela cara os dedos como que para certificar-se de que o quê o espelho reflete ainda está ali, de pé, dentro da roupa e dos sapatos, no interior do banheiro do apartamento 53, Rua Angélica, São Paulo. Para saber se o que se vê não é, na verdade, uma lembrança contida em alguma parte da poça de água na qual você se transformou molhando todo o chão de ladrilhos cor-sim-cor-não, e se apresse em recompor-se que logo vem alguém com um trapo velho a acabar com sua aventura aquática. E, de fato, é a estúpida certeza, desenhada no interior do recorte retangular em cuja borda superior há a loção pós-barba, pasta de dentes e desodorante, que vence, impõ…

CLIFFORD BROWN E O MILAGRE DA COZINHA

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A comparação parecerá estúpida, mas que se pode fazer? A bem da verdade o próprio Arturo também a achou bem estúpida, por mais que divertida. “Talvez coubesse bem em alguma resenha qualquer; serviria para arrancar algumas risadas dos leitores e isso é sempre bom”, imaginou enquanto sorria com a comparação formulada bem no momento em que um esguicho de sabão o salpicava a testa com minúsculas manchas brancas e Clifford Brown o invadia com suas primeiras notas. É que de repente se deu conta de estar na sua cozinha (constatação nada inusitada quando, pouco antes, havia-se decidido por lavar pratos e copos e talheres sujos), como as que também existem nas jazz bands. Não exatamente iguais, claro. Desafortunadamente, ainda não chegara ao ponto de imaginar que, de repente ao precisar do pano de prato, estender-lho-ia o próprio Clifford, interrompendo seu trompete, sorridente mesmo assim por poder ajudar; voltando, logo em seguida, a contrair-se absurdamente, como que transformado unicamente…
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O que Arturo poderia dizer? Porque sempre buscava palavras com as quais pudesse definir para si mesmo os momentos que vivia (contentar-se com apenas vivê-los é muito pouco, dizia Arturo, preferencialmente entre uma mesa e garota outra). Estava mais uma vez ouvindo Billie Holiday, um vinil duplo, som perfeito, coisa difícil de encontrar nos dias de hoje em que se acham discos apenas nos sebos. Donos de discos bons não se desfazem deles. Apenas quando morrem, suas raridades aparecem por aí, vendidas pelos filhos preocupados, desde o dia do enterro, com onde meter todas as porcarias do velho, onde é que já se viu juntar tanta coisa? Sorte sua encontrá-las antes de desaparecerem tão rápido como chegaram. E Arturo sabia da sorte que teve com aquele LP. Seu prazer já começava antes mesmo das primeiras notas escorregarem pegajosas pelas caixas de som, tomando conta de toda a casa e a redefinindo totalmente. “Redefinindo-a totalmente”. Quando a expressão cruzou sua cabeça, Arturo diminuiu o r…

Bom diálogo para se ter com uma garota (talvez já tido, mas, vejam lá, não contem para ela; apenas usem com as suas...)

- jazz é como a baba de Deus

(silêncio e ele que não está satisfeito)

- que a escorre chacoalhando pelas barbas

- nossa!

(e agora ambos que não estão satisfeitos e querem mais)

- de onde veio isso?

(é a hora, meu rapaz, atenção:

- dos meus joelhos que dobram ao som de lester young

- noooossa...

(dessa vez mais longo e suingado, como se pode perceber, feito o próprio jazz da conversa)

- e seus joelhos... sabem fazer algo mais?

(dispensam-se comentários)

- sabem dançar ano nosso ritmo, baby...

Branquinha

Sua ausência é a presença mais persistente que já conheci. Não é do tipo que se pode encarar, olhar nos olhos e pedir que se vá embora, não, não senhor. Você se prendeu fundo no que chamam de coração, alma, ou pode ser que até de estômago, ou de vísceras, de modo que quando e enquanto estou você também está, e daí como é que faz? Encontra-se com alguns amigos para com empolgação discutir temas, bebericar um pouco, planejar uma viagem para algum lugar; dá-se atenção aos de-ta-lhes e surge até mesmo certa expectativa positiva. Mas é só abrir a mala (se prepare para um grande clichê; pode começar até a entortar a cara, meu rapaz) e zás: onde é que está a maldita escova de dente? (ué, mas eu achava que...acalme-se, acalme-se que logo vem e você poderá justificadamente franzir o cenho...). Como é que alguém pode esquecer a bendita escova? Pode parecer estranho, mas das escovas até que se esquece (utensílios utilíssimos, não se nega, mas reféns eternos de seu destino semântico extremamente …