Hoje o dia estava bom. Um sol tranquilo. Não ventava. Em dias assim, sinto vontade de sair para caminhar. Como normalmente não há dias assim em londres, quando não estou trabalhando, estou em casa. Leio um livro, preparo um café, ouço algum jazz. Mas na maioria das vezes não faço nada. Entretanto, hoje eu tinha trabalho pela tarde. E se eu fosse trabalhar, devería sair de casa não mais tarde que três e meia. Desde depois do almoço, pensava no que ia fazer, diante da janela. Eu poderia perder o emprego se eu não fosse. Após um bom tempo, olhei para o relógio. Três e quarenta e cinco. Eu gostei de não precisar decidir nada. Agora, a tarde era minha.
Mas eu não sabia bem para onde ir e, então, simplesmete comecei a andar. Lembrei da região das docas. Londres tem alguns canais como Veneza. Peguei um ônibus que me levou até lá. Quando eu o deixei, estava em uma rua muito movimentada, cheia de lojas e pessoas com sacolas. Eu me senti um pouco incomodado e andei mais rápido, pois de outra maneira, se ficasse muito mais tempo entre aquela multidão, sentiria vontade de voltar para casa. Quando eu vi uma uma ponte, imaginei haver chegado onde queria. O canal passava por debaixo dela e havia um camino pelo qual eu poderia andar ao lado da água. Ainda havia muitas pessoas, mas agora elas estavam sentadas em cafés, comendo, bebendo e falando muito. Provavelmente, algumas horas antes elas estavam também passando por aquelas lojas que eu acabara de ver. Mas finalmente eu estava caminhando ao lado de um canal. Eu andei por um bom tempo. Cada passo me afastava mais e mais dos outros e eu me senti melhor. O canal passava pelo interior de um parque, dividindo-o ao meio. Havia muitas árvores. Havia também algumas casas. Uma delas tinha um perfeito muro de grama. Por alguma razão, comecei a pensar no sujeito que periodicamente era responsável por mantê-lo daquele jeito. Imaginei-o em uma segunda-feira pela tarde. Ele provavelmente estaria completamente só naquele momento. Tudo aquilo pertenceria apenas a ele. Ele certamente encontrava alguma paz trabalhando no jardim de algum ricaço que provavelmente perdia tudo aquilo passando seus dias em algum escritório no nono andar de algum edifício.
Continuei caminhando e não sentia nenhuma vontade de parar. A vida poderia ser um eterno passeio como aquele e o final do percurso seria o final de tudo. Aquelas árvores, a água e o silêncio me fizeram bem. Nada mais para pensar depois. Mas após quase duas horas, avistei o fim do caminho. O canal seguia por uma espécie de túnel escuro e eu não poderia mais segui-lo. Subi algumas escadas. Outros cafés, outras lojas. Meu momento de paz se acabara. Tomei um ônibus para casa.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Cap. 68 - O Jogo da Amarelinha