terça-feira, 13 de março de 2012

quinta-feira, 8 de março de 2012

Exercício - Construção do espaço pelo cheiro e uma digressão desavisada

Vou para o trabalho de metrô. Mas não necessito fazer nenhuma baldeação. Percorro quatro estações da mesma linha. É a verde. Para os habitantes da minha cidade, essa informação terá alguma relevância. Vila Madalena até Trianon-Masp. Terão uma idéia de onde moro e trabalho. Os outros poderão imaginar a cor que quiserem. Digo cores porque normalmente é o que utilizam para designar as linhas de metrô. Mas podem escolher quaisquer outros substantivos. Animais, por exemplo. Linha papagaio, linha orangotango. Pensar em tudo isso me fez imaginar que talvez fosse divertido utilizar adjetivos: linha apressada, linha desinibida, linha inflexível, linha maquiavélica, linha melancólica. Mas talvez isso não seja uma boa idéia. Pegar a linha melancólica em um dia triste não seria uma boa combinação para uma pessoa mística. Tomaria isso como uma prova irrefutável da ausência de sentido da vida. Haveria suicídios. Reclamariam a parcela de culpa do Estado...

Mas não era sobre isso que eu pretendia escrever.

Há alguns dias, decidi percorrer meu caminho de olhos fechados. Hoje farei a mesma coisa. Entro no vagão, escolho o assento, sento e me assento. E fecho os olhos. Procuro ficar imóvel. Sobram-me a audição e o olfato. Mas quero apenas cheiros e tapo minhas orelhas. Respiro loooooooooongamente. Tomo consciência do ar que adentra minhas narinas. Ainda tenho na lembrança o punhado de gente que entrou comigo. O exercício propriamente dito se inicia apenas a partir da estação subseqüente, em que entrarão mais pessoas, que não verei. Até esse momento, respirava um ar isento. Se havia odores agradáveis ou fétidos, ainda não os sentia. Mas logo após a primeira parada, que sinto com o corpo, com a breve interrupção do movimento, e seu reinício, sinto perfumes. Fragrâncias femininas. Também cheiros de homens limpos que tomaram banho e se prepararam para mais um dia de trabalho. Sei que essa primeira parada é a estação Sumaré. É uma das minhas preferidas. A jornada começa por debaixo da terra, mas essa estação fica acima de uma avenida. De olhos abertos, é possível ver o trânsito da manhã. Não é uma estação muito movimentada. O vagão não lota. Poucas pessoas costumam ter de ficar em pé. Não deve ter havido nenhuma novidade, pois senti um ou dos cheiros que se misturavam. A maioria das pessoas, pelo que noto, não usa perfume e toma um banho apenas suficiente. Sente-se o seu cheio apenas em situações mais íntimas.

A próxima estação se chama Clínicas. Normalmente, o vagão, já relativamente cheio, enche-se um pouco mais.

Puxando o ar, invade-me um odor de salgadinho, daqueles que costumávamos dizer brincando que foram feitos de isopor. Suspeito que uma criança deve ter entrado. E se entrou uma criança, estará acompanhada de sua mãe. Na superfície, circundam essa estação muitos hospitais. Normalmente, os passageiros que tomam o metrô nesse ponto são velhos carregando exames debaixo dos braços. Mães que trouxeram seus pequenos, ou estes que vieram acompanhar aquelas, pois não havia ninguém que os cuidasse. Muitos rostos de velhos, mães e crianças povoam-me a mente. Talvez eu os tenha visto aqui mesmo, ou talvez venham de outros lugares. Não se pode saber. De todo modo, o vagão está cheio.

Agora virá a Consolação. Grande afluxo humano.

E não houve surpresa. A Consolação é previsível. Não há um dia sequer que não entre no vagão um batalhão de pessoas. O ar que eu exalava, antes isento e muito pouco corrompido, de repente torna-se denso, extremamente pesado. São odores ruins, quase fétidos. Muita, muita gente entrou. Claro que haverá quem vem perfumado. O que me permite dizer que na batalha de cheiros, o fétido prevalece, pois é ele que me oprime, e quase me obriga abrir os olhos, para que eu possa extravasar por meio de outro dos meus sentidos. Mas resisto. Tal como esse cheiro, que parece formar um bloco compacto e duro, fica o vagão. Costuma ficar a tal ponto lotado, que não se vêem pessoas e sim pedaços delas. Braços, pernas, bundas, costas, pescoços, bocas. Há infinitos braços que vão ao trabalho.

A próxima é a minha. A respiração, por algum motivo, acelera-se. Será que alguém me viu e concluiu que durmo? Será que alguém estará me olhando quando abrir meus olhos? Decido que os abrirei com rapidez, mas não os fixarei em nada, não perguntarei nada a ninguém. E como uma múmia que desperta de um sono ancestral, decidida a cumprir uma missão, abro meus olhos e tomo meu caminho. O mesmo de todos os dias.

Esssssstação Trianonnn-Maaasp.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Exercício – A construção do espaço pelo som


Por ser uma ladeira de paralelepípedos, a potência dos ruídos se multiplica algumas vezes. Moro no apartamento 32. Sobem aos meus ouvidos como se uma artilharia estivesse treinando disparos. Das imediações, alcançam-me os sons de arranque dos ônibus. Parecem expelir, a cada movimento, grandes quantidades de ar. Misturam-se latidos de cães que, vindos de diversas distâncias, formam uma particular sinfonia que integra o todo dos sons. Talvez se comuniquem. Ouvem-se também as vozes de transeuntes, seus passos, suas risadas. De repente, motos velozes rasgam o asfalto e produzem gritos de dor. A cada instante, o pensamento é invadido. Parece haver uma pequena guerra que se espalha por todas as partes, mas é apenas a cidade, que custa a dormir.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012


Sentirei uma tristeza disforme e habitante do labirinto por onde transitam as sombras de minhas recordações, que me assombram com sussurros e sugestões. Eu quereria ter mãos em meus olhos para poder agarrar os momentos. E uma caixa para metê-los dentro; deixá-los curtindo, livrando-se da gordura desnecessária, para, feito madeira seca, servirem de matéria prima ideal.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Vamos jogar pingue-pongue?

Oscar Wilde diz: "Não sou jovem o suficiente para saber tudo.". Lembrei-me dessa frase ao assistir o vídeo que registrou a reação de uma criança ao descobrir que existem casais de marido e marido. Cheguei a esse vídeo, pois me vi metido em um momento de auto-crítica, de rever posicionamentos. Conclui que o inglês estava certo: não sou mais criança para saber de algumas coisas. Mas posso aprender!

Talvez muitas verdades estejam nas crianças, porque elas as mereçam mais do que nós, adultos inseguros que dependemos tanto de um punhado de convicções para construir o chão em que pisamos. E que ninguém as arranhe. 

Como reage o menino? Com espanto, claro. Casais de marido (meninos) e esposa (mulheres) é o que ele mais vê. Além disso, o natural é que o macho procure a fêmea em qualquer espécie. Talvez esse dado genético também se manifeste na reação do garoto.

O espanto é a reação natural do ser humano àquilo que é diferente - diferente enquanto, simplesmente, aquilo que não acontece com tanta frequência. O problema, portanto, não é o espanto em si mesmo. E esse é o engano que aprisiona os radicais de ambos os lados: tanto aqueles que querem abolir o espanto, exigindo uma aceitação fria, passiva e mentirosa, quanto aqueles outros, que trazem o espanto para casa, alimentam-o e o integram no conjunto de verdades que os tranquiliza a existência.

Pois bem, o menino se espanta. Fica confuso. Faz cara de nojo quando conclui que os dois maridos se amam! Mas logo em seguida sente vontade de jogar pingue-pongue e diz que eles, os dois maridos, podem acompanhá-lo, se quiserem. Na criança, o afeto também se manifesta mais livremente, porque amar também é o natural em nossa espécie. O garotinho deixa o espanto ir embora, passar livremente. Talvez depois, no dia seguinte à festinha, lembre-se apenas que jogou pingue-pongue com dois maridos que se amam...e que são seus dois novos amigos!



Escrevo este texto também imbuído do mais absoluto sentimento de amor... Seria um absurdo utilizar essa assunto, e o garotinho do vídeo, para provocar qualquer pessoa... Espero que, ao menos, não vejam em minhas palavras intenções belicosas. Queria que "vissem" o amor que ainda sinto, mas quanto a isso não tenho esperanças...

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Funcionário de Consulado

O primeiro homem que me atendeu efetuou a cobrança pela renovação do passaporte. “Agora, fale com o Alexandre. Sala 7.” Atravessei uma área externa da enorme casa que abriga o Consulado. Dentro da tal sala, as mesas formam um L. Na perna mais longa, sentavam um homem e uma mulher. Na outra, quase grudado na parede, o homem que restava. Todos levantaram a cabeça e me olharam. Muito provavelmente, cada um deles executava um único tipo de serviço. Por isso a excitação que repentinamente os dominou até que “Alexandre” e duas cabeças imediatamente baixaram, a da mulher e a do homem mais velho que sentava a seu lado. Vindo do canto, percebi um grunhido quase inaudível. Era ele. Eu era o primeiro trabalho do dia.

Alexandre aparenta entre 30 e 35 anos. Não é alto nem baixo. É feio. Os cabelos pretos são encaracolados. Na parte da frente, já se percebe a entrada. Compensa-a os deixando sobrar atrás, onde pequenos cachos se formam voltados para a cabeça, como se desejassem retornar à região em que fazem falta. Não havia expressão em sua face. Antes mesmo de eu me sentar, já estendia a mão esquerda. Esperava meu passaporte, claro. É a única coisa que invariavelmente recebe das mãos das pessoas que entram na sala 7 e dizem Alexandre, como eu disse. Não me saudou. Não me recebeu sequer com um olhar. Senti-me ligeiramente desnorteado. Creio que vocês também não esperam, em quaisquer dessas situações da vida que nos metem diante de um desconhecido, que faz qualquer coisa que momentaneamente necessitamos, esse automatismo absoluto, essa aparente ausência de sinais vitais. Ao longo do atendimento, fiz duas ou três perguntas. Não me respondeu. Repetia as perguntas, olhando para os dois colegas, que, por sua vez, respondiam-me. A situação era bizarra. Mesmo com os colegas, falava baixo, muito a contragosto. Mas a culpa era minha. Certamente em outras ocasiões, divertia-se muito com aqueles dois. Seguiu sem olhar-me nos olhos durante todo o tempo. Quando percebi que havia terminado com as anotações e carimbos, perguntei se deveria deixar o passaporte antigo. Balançou a cabeça negativamente e movimentou a mão em minha direção, dizendo sem palavras que o levasse, que o levasse.

Quando sai, tive de passar uma vez mais, bem rapidamente, pelo primeiro sujeito que me atendera. Já a caminho da rua, do corredor que eu percorria, avistei o Alexandre. Tomava o primeiro café do dia e sorria muito, conversando com outro funcionário. Olhamo-nos.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Falando de cinema em 400 palavras. Crítica: Pickpocket (O batedor de carteiras, Robert Bresson, 1959)






Estranha história de amor! Sugerida em poucos instantes ao longo do filme. Confirmada apenas na última cena, para que se completasse depois, na cabeça ou nos sonhos do expectador. E não é isso que torna um filme, ou livro, em matéria viva, mais do que simples lazer que se esgota tão logo termina? No filme de Robert Bresson, há um aspirante a Raskólnikov, personagem principal do livro “Crime e Castigo”, o batedor de carteiras Michael. Sua primeira tentativa, que abre o filme, quase o atira de pronto à cadeia. É preso, mas logo liberado. Não havia nada em seus bolsos. Apenas o dinheiro surrupiado de uma senhora na confusão de uma plateia de hipódromo. No dia seguinte, vai visitar a mãe e a descobre doente, assistida por uma jovem vizinha, Jeanne. Mas não entra. Por algum motivo, decide não vê-la. Parado diante da porta, apenas entrega o dinheiro. “Você não vai entrar? Não vai lhe dar um beijo? Não, ele não vai. “Até logo,  Jeanne”.

A suspeita faz com que a polícia siga em seu em encalço ao longo de todo a história. Michael, no café que frequenta com um amigo, acaba conversando com o próprio inspetor de polícia. Revela-lhe a sua (não tão nova) teoria de que aos homens superiores não deveria haver restrições de nenhuma espécie. O primeiro sucesso o instiga a continuar e se sofisticar. Michael passa vários momentos treinando seus dedos no apertado e minúsculo cubículo em que vive. É preciso torná-los ágeis e confiantes.  Associa-se a outros batedores, e comete assaltos cada vez mais espetaculares, pela destreza que adquirem. Mas o cerco se fecha. O inspetor interessa-se cada vez mais por sua apática e intrigante figura. É seguido. Seus comparsas terminam presos. Decide sair da França e voltamos a acompanhar sua história apenas dois anos depois, quando regressa a Paris. Reencontra Jeanne, a essa altura, já mãe, mas não esposa. Reinicia os pequenos furtos no hipódromo em que tudo começara. Mas dessa vez, Michael é preso. Na prisão, recebe as visitas da única pessoa que conhecia. “Por que você veio?”. “Eu só tenho você”, responde-lhe Jeanne, que passa um tempo se vê-lo, mas envia uma carta. A criança estivera doente. Quando retorna, entre as grades, Michael beija-lhe a testa. E em nossa cabeça, continua essa estranha e bela história de amor.

Fin.